Havia um menino que não cabia na sala de aula. Não porque fosse maior que as carteiras, mas porque seus pensamentos escorriam para fora delas. Enquanto os colegas falavam sobre jogos, modas ou pequenas situações do cotidiano, ele preferia mergulhar nas páginas de livros de aventura e mistério, onde sua imaginação voava livre, como um pássaro no céu.
Seu caderno de escola, cheio de anotações sobre os livros que lia e as músicas que ouvia — algumas calmas como uma brisa, outras carregadas de denúncia, desigualdade ou saudade traduzida em notas de angústia — parecia, para os outros, apenas um amontoado de rabiscos. Mas ali viviam planetas inteiros, personagens e melodias que ninguém via. Não que ele realmente vivesse em outro mundo, mas porque o criava dentro de si.
Às vezes, sentia-se sozinho — como se tivesse uma vela acesa em um quarto imenso e escuro, e a chama iluminasse apenas um pequeno círculo ao seu redor. Mas era justamente além dessa sombra, onde a vela não alcançava, que ele queria ir. Nem a crença comum, nem os hábitos repetidos do cotidiano o prendiam. O menino acreditava em algo que não cabia em verdades prontas — quase como no efeito Mandela: a convicção de que a imaginação podia ser um caminho, e que a música era uma porta secreta para o invisível.
Enquanto a turma seguia a trilha conhecida, ele caminhava em silêncio por mundos que ninguém ainda ousara descobrir. Perguntava a si mesmo: — Até quando as pessoas irão ignorar esse mundo? Tão real, mas que ninguém parece capaz de enxergar de verdade?
Com o tempo, o menino cresceu alimentando sua chama secreta. Cada livro aberto era uma porta; cada canção descoberta, uma estrada. Enquanto os colegas falavam de provas, namoros e modismos passageiros, ele se deixava levar para terras que não existiam no mapa da escola: cidades invisíveis, jardins esquecidos da imaginação.
Um dia, percebeu que não estava apenas visitando esses lugares — estava habitando neles. Suas ideias, seus sonhos e até o modo como olhava o mundo vinham daquele “outro lado”: o lado onde a vela não alcançava.
Os outros o estranhavam. Alguns riam, chamavam-no de “diferente demais”. Outros o olhavam com desconfiança, como se andar por caminhos invisíveis fosse coisa perigosa. Poucos, bem poucos, ficavam em silêncio — talvez sentindo uma ponta de curiosidade ou inveja.
Mas o menino não guardava mágoa. Sabia que o medo de muitos era apenas a sombra projetada pelo limite da vela. Dentro de si, carregava a certeza de que há mais mundo do que os olhos comuns conseguem ver.
E assim seguiu sua viagem. Enquanto a chama dos outros tremia com o vento, ele aprendeu a andar na escuridão — que, para ele, nunca era vazia, mas cheia de estrelas.
Os anos passaram, e aquele menino que preferia os livros e as músicas aos jogos triviais cresceu em silêncio, sem jamais apagar a centelha que o guiava. A cada passo, transformava os mundos que lia e ouvia em parte da própria vida: escrevia como quem abre fendas na realidade; tocava notas como quem traz o invisível para dentro do presente.
percebeu que muitos haviam se acomodado sob a mesma vela fraca de sempre — repetindo crenças, opiniões e rotinas, sem
notar que estavam parados.
insensatez.
Mas algo mudara: o menino, agora homem, não buscava mais a aprovação deles. Construíra sua própria luz — não de vela, mas de imaginação.
Onde chegava, inspirava alguns a olharem além; outros, ainda temerosos, viravam o rosto, incapazes de encarar um brilho que não compreendiam. E assim ficou claro: não era ele quem estava fora do lugar, mas o lugar que nunca aprendera a acolher quem ousa atravessar as fronteiras do comum.
No fim, não precisou convencer ninguém. Bastava caminhar. Pois, enquanto as velas dos outros ainda tremiam no escuro, ele já se movia sob um céu inteiro de estrelas.
Numa manhã estranhamente serena, o homem foi até o parque local. O sol nascia lento, e o ar parecia suspenso entre sonho e lembrança. Lá, encontrou um garoto de uns quinze anos, sentado em um banco vazio, com um livro de aventura nas mãos. O homem o observou em silêncio — e viu a si mesmo.
O garoto perguntou: — Senhor, por que está nesse parque tão cedo?
espelho antigo.
apaga, apenas muda de mãos.
O garoto, percebendo o olhar do homem, riu — leve, como o Pequeno Príncipe diante de um mistério simples. E os dois começaram a conversar sobre mundos invisíveis e canções que ninguém mais ouvia.
Naquele instante, o homem — que fora o menino solitário e sonhador — soube que, enfim, não estava mais sozinho. Porque, em algum lugar além do alcance das velas, as estrelas sempre encontram novas almas dispostas a segui-las.
Saullo Guilherme Ferreira Cardoso

