O Colar

Enquanto eu e meus dois amigos estávamos acampados em uma barraca, um barulho extremamente alto ecoou por todo o acampamento, como se alguma coisa tivesse explodido nas proximidades. Assustados, acordamos por alguns instantes, mas acabamos concluindo que poderia ter sido apenas o trovão de uma tempestade distante ou fruto da nossa imaginação. Assim, voltamos a dormir.

Porém, quando o relógio marcou duas horas da manhã, o mesmo estrondo voltou a estremecer a floresta. Dessa vez, José, um dos meus amigos, resolveu sair da barraca para verificar o que estava acontecendo. Do lado de fora, encontrou dois homens altos e fortes, vestidos com uniformes do acampamento.

— O que foi esse barulho? — Perguntou José.

Um deles respondeu calmamente:

— Não foi nada. Apenas um gerador de energia apresentou um defeito e explodiu. Já está tudo sob controle.

Sem desconfiar de nada, José voltou para a barraca e contou o que havia acontecido. Convencidos pela explicação, todos nós voltamos a dormir.

Na manhã seguinte, eu e Ryan, meu outro amigo, fomos até um mercado próximo comprar comida e alguns suprimentos. Quando retornamos ao acampamento, percebemos que José havia desaparecido. A princípio, imaginei que ele tivesse entrado na floresta para caçar algum javali ou explorar a região. Entretanto, enquanto organizava os sacos de dormir, encontrei um envelope sobre o travesseiro de José. Ao abri-lo, senti um frio percorrer meu corpo.

No papel estava escrito: “Se quiser seu amigo de volta, entregue aquilo que me pertence.”

Logo abaixo da mensagem havia o desenho de um colar e as coordenadas de uma velha cabana escondida no meio da floresta. Sem perder tempo, eu e Ryan entramos no carro e seguimos até o local indicado. A estrada terminou alguns quilômetros depois. Dali em diante, havia apenas uma mata fechada e sombria.

Ryan carregava um facão e começou a abrir caminho entre a vegetação. Quanto mais avançávamos, mais silenciosa a floresta ficava. Nem mesmo o canto dos pássaros podia ser ouvido. Depois de quase uma hora de caminhada, avistamos uma cabana velha, quase destruída pelo tempo. A porta estava entreaberta. Ryan entrou primeiro.

No centro do cômodo, José estava caído no chão, coberto de sangue e respirando com enorme dificuldade. Ryan ajoelhou-se ao lado do amigo.

— José! Aguente firme! Vamos tirá-lo daqui!

José segurou o braço de Ryan com as poucas forças que lhe restavam.

— Cuidado… Ryan…

Sua voz era quase um sussurro.

— Ele… não é humano… É o Príncipe dos Demônios…

Ryan arregalou os olhos.

— Ele quer… o colar… aquele que seu avô lhe deu… Não deixe… que ele consiga…

Essas foram suas últimas palavras. Poucos segundos depois, José fechou os olhos para sempre. Ryan permaneceu imóvel, completamente abalado pela perda do amigo. Enquanto observava o corpo de José, levou a mão ao pescoço e segurou o velho colar que herdara do avô. Uma única pergunta ocupava sua mente: Por que um demônio desejaria aquele colar?

Sem perder tempo, Ryan voltou para casa e dirigiu até a fazenda onde seu avô morava. Ao chegar, abraçou o velho, que não via havia muitos meses. Sem rodeios, perguntou:

— Vovô… por que o Príncipe dos Demônios quer este colar?

O idoso ficou em silêncio durante alguns instantes. Seu rosto perdeu a cor. Por fim, respondeu:

— Porque esse colar pertenceu ao Rei dos Demônios.

Ryan ficou sem entender.

— Mas como ele veio parar com nossa família?

O avô respirou fundo.

— Meu pai era um aventureiro. Há muitos anos, ele encontrou um portal para o mundo dos demônios. Durante uma batalha, conseguiu roubar este colar antes que o Rei dos Demônios concluísse um ritual.

Ryan perguntou:

— Que ritual era esse?

— Este colar é uma chave. Com ele, o Rei dos Demônios pode abrir um portal permanente entre os dois mundos e conquistar a Terra. Por isso, meu pai fugiu com o artefato e o escondeu entre nossa família durante gerações.

Ryan apertou o colar.

— Então como posso derrotá-lo?

O avô balançou a cabeça.

— Derrotá-lo é impossível. Mas existe uma maneira de expulsá-lo para sempre.

Ryan aproximou-se.

— Como?

— Leve o colar até o topo da montanha mais alta da região. Lá existe um antigo selo mágico. Quando o colar tocar o altar de pedra, um portal será aberto para o mundo dos demônios. Se conseguir fazer o príncipe atravessá-lo antes que ele se feche, ele jamais voltará.

Ryan agradeceu e partiu imediatamente. Depois de horas de viagem, chegou ao topo da maior montanha da região. No centro havia um enorme círculo de pedras coberto por símbolos antigos. Ryan colocou o colar sobre o altar. Instantaneamente, o objeto começou a emitir uma intensa luz azulada.

O céu escureceu. O chão tremeu. Um gigantesco portal negro surgiu diante dele. Segundos depois, uma criatura alada atravessou a abertura. Era o Príncipe dos Demônios. Seus olhos brilhavam como brasas. Suas asas cobriam quase todo o céu. Ao ver o colar, sorriu.

— Finalmente… devolva o que pertence ao meu rei.

Ryan respondeu com firmeza:

— Nunca! Você matou meu melhor amigo!

O demônio rugiu e avançou. A batalha começou. Ryan desviava dos golpes enquanto procurava uma oportunidade. Mesmo sendo apenas um humano, conseguia usar a velocidade e o terreno a seu favor. Ainda assim, o príncipe era muito mais forte.

Um poderoso chute atingiu o peito de Ryan, arremessando-o contra uma pedra. Mesmo ferido, ele sorriu discretamente. Enquanto o demônio se aproximava, Ryan retirou do bolso uma réplica perfeita do colar, feita dias antes por um velho artesão da cidade. Sem que o inimigo percebesse, lançou o colar falso para dentro do portal. Ao vê-lo cair, o Príncipe dos Demônios acreditou que o verdadeiro artefato estava escapando. Sem pensar duas vezes, mergulhou através da abertura.

Era exatamente o que Ryan esperava. No mesmo instante, pegou o colar verdadeiro, retirou-o do altar e pronunciou as palavras que seu avô lhe ensinara. O portal começou a se fechar rapidamente. Do outro lado, o príncipe percebeu que havia sido enganado. Tentou atravessar novamente, mas já era tarde. Com um estrondo ensurdecedor, o portal desapareceu. O silêncio voltou a dominar a montanha.

Ryan olhou para o colar em suas mãos. Sabia que aquela batalha havia terminado, mas também compreendia que enquanto o colar existisse, sempre haveria alguém disposto a procurá-lo. Naquele dia, fez uma promessa diante do túmulo de José:

— Enquanto eu viver, ninguém jamais usará este colar para trazer a escuridão ao nosso mundo.

Luiz Henrique Gomes Silva

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