A Batida na Janela

Eu nunca gostei de ficar sozinha na casa de campo da minha avó. Durante o dia, o lugar era encantador: havia árvores frondosas, flores coloridas e o canto constante dos pássaros. À noite, porém, tudo mudava. A escuridão tomava conta da propriedade, e o silêncio era tão intenso que qualquer ruído fazia meu coração disparar.

Tudo começou em uma sexta-feira chuvosa. Eu estava deitada na cama, mexendo no celular, quando ouvi três batidas na janela.

Tum. Tum. Tum.


Assustada, levantei-me e fui até a janela. Afastei a cortina lentamente. Não havia ninguém do lado de fora. Apenas a chuva caindo sem parar, o vento balançando as árvores e a escuridão cobrindo todo o quintal.

Pensei que algum galho tivesse batido no vidro por causa do vento e tentei voltar a dormir. Na noite seguinte, porém, aconteceu novamente.

Tum. Tum. Tum.

Desta vez, fui imediatamente até a janela. Nada. Nenhuma pessoa. Nenhum animal. Nem sequer um galho próximo o bastante para tocar o vidro. Apenas o quintal vazio e o som da chuva. As batidas continuaram durante toda a semana.

Sempre três batidas.

Sempre à meia-noite em ponto.

Comecei a perder o sono. O medo aumentava a cada noite. Finalmente, decidi contar tudo à minha avó. Enquanto eu falava, percebi que seu rosto perdeu completamente a cor. Ela permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder.

Se você ouvir essas batidas novamente… não abra a janela. Nunca abra. Prometa isso para mim.

A seriedade em sua voz me assustou muito mais do que as próprias batidas. Mas também despertou minha curiosidade. Na semana seguinte, quando o relógio marcou exatamente meia-noite, as batidas voltaram.

Tum. Tum. Tum.

Respirei fundo e caminhei lentamente até a janela. Meu coração parecia querer sair do peito. Segurei a cortina com as mãos trêmulas. Olhei para fora. Mais uma vez… Nada. Quando estava prestes a me afastar, algo aconteceu. Uma pequena marca surgiu no vidro embaçado. Era como se um dedo invisível escrevesse do lado de fora.

Lentamente, letra por letra, apareceu uma frase.

“Eu ainda estou esperando.”

Um arrepio percorreu meu corpo inteiro. Dei um grito e corri até o quarto da minha avó. Ela já estava acordada. Como se esperasse por aquilo.

Na manhã seguinte, sentou-se comigo na varanda e decidiu revelar um segredo que jamais havia contado a ninguém da família. Muitos anos antes, quando ela ainda era criança, uma menina chamada Helena morava na propriedade vizinha.

Durante uma tempestade muito forte, a garota desapareceu. Horas depois, alguns moradores disseram ter ouvido alguém bater desesperadamente na janela daquela mesma casa. Ninguém abriu. Todos acreditaram que fosse apenas o vento.

Somente na manhã seguinte encontraram pegadas que terminavam diante da janela. O corpo da menina jamais foi encontrado. Desde então, contam que, em noites de tempestade, Helena retorna. Ela continua batendo na janela. Sempre três vezes. Sempre esperando que alguém finalmente a deixe entrar.

Passei o restante do dia tentando convencer a mim mesma de que aquela história era apenas uma antiga lenda. Mas, naquela noite, a chuva voltou. O vento soprava com tanta força que as árvores pareciam querer arrancar suas próprias raízes.

Fiquei acordada observando o relógio. Quando os ponteiros marcaram meia-noite…

Tum. Tum. Tum.

As batidas recomeçaram. Fechei os olhos e tentei ignorá-las. Então ouvi outro som.

Passos.

Lentos.

Arrastados.

Vindo pelo corredor. Seguidos de um leve rangido no assoalho de madeira. Os passos pararam diante da porta do meu quarto. O silêncio durou apenas alguns segundos. Então…

Tum. Tum. Tum.

As batidas não vinham mais da janela. Vinham da porta. Prendi a respiração. Minha avó estava dormindo no quarto ao lado. Ou, pelo menos, era o que eu imaginava. Ouvi sua voz, quase um sussurro, atravessar a parede.

Não responda…

As batidas tornaram-se mais fortes.

TUM. TUM. TUM.

Logo depois, uma voz infantil ecoou do outro lado da porta. Era baixa. Triste. Quase um choro.

Por favor… está muito frio aqui fora…

As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu queria acreditar que era apenas alguém pedindo ajuda. Mas lembrei das palavras da minha avó. Nunca abra.

A voz insistiu mais uma vez.

Só um pouquinho… Segurei a maçaneta com força. Por um instante, pensei em abrir. Mas recuei.

As batidas cessaram. O silêncio voltou.

Na manhã seguinte, encontrei marcas de pequenas mãos molhadas na porta do quarto. Havia também pegadas de lama pelo corredor. Elas terminavam exatamente diante da porta. Não havia pegadas voltando.

Minha avó apenas olhou para as marcas e fechou os olhos. Como se já soubesse o que havia acontecido. Desde aquela noite, nunca mais voltei à casa de campo. Mas, sempre que uma tempestade começa e o relógio se aproxima da meia-noite, desligo todas as luzes, fecho bem as janelas e evito chegar perto da porta. Porque algumas pessoas juram que a menina continua procurando alguém que responda às suas batidas. E dizem que, se um dia você abrir a porta… será você quem ficará do lado de fora, batendo para sempre.

Maria Alice Guedes Felipe

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