A Chuva do Esquecimento

A chuva começou em uma terça-feira aparentemente comum.

Eu estava voltando da escola quando o céu escureceu de forma repentina. Não parecia uma tempestade comum. O vento soprava com violência, os trovões eram ensurdecedores e, por algum motivo, todas as pessoas nas ruas demonstravam um medo que eu nunca havia visto antes.

Alguns corriam desesperados para dentro de suas casas. Outros olhavam para o céu como se esperassem que algo terrível acontecesse. Quando cheguei em casa, a chuva caía com tanta intensidade que mal era possível enxergar a rua através da janela. Minha mãe pediu que eu me afastasse do vidro.

— Não fique olhando para essa tempestade… Ela não parece normal.

Assenti e me sentei no sofá, mas continuei observando a chuva pela janela. Os relâmpagos iluminavam o céu sem parar. Então… tudo ficou branco. Não foi apenas um clarão. Foi como se toda a realidade tivesse desaparecido diante dos meus olhos. Quando despertei, a casa estava completamente silenciosa. Olhei para o relógio. Já era noite. Minha cabeça doía, como se eu tivesse dormido por muitas horas. Peguei o celular e encontrei dezenas de mensagens.

“Você está bem?”

“Você lembra de alguma coisa?”

“O que aconteceu hoje?”

Confusa, respondi que não entendia nada. Foi então que descobri que eu não era a única. A cidade inteira havia perdido a memória durante algumas horas. Ninguém conseguia explicar o que havia acontecido entre o início da tempestade e o momento em que todos despertaram. Era como se aquele período simplesmente tivesse desaparecido da existência.

Nos dias seguintes, os jornais, os programas de televisão e as redes sociais falavam apenas sobre aquele estranho acontecimento. Algumas pessoas acordaram em bairros completamente diferentes. Outras encontraram objetos desconhecidos dentro de casa. Havia moradores que juravam ter visto sombras gigantes caminhando pelas ruas pouco antes de perderem a consciência. Outros afirmavam ter ouvido vozes chamando seus nomes durante a chuva.

As autoridades iniciaram uma investigação, mas nenhuma explicação fazia sentido. No dia seguinte, fui para a escola acreditando que tudo voltaria ao normal. Mas isso nunca aconteceu. Durante o intervalo, minha melhor amiga, Laura, aproximou-se de mim com o rosto completamente pálido.

— Preciso te mostrar uma coisa.

Ela abriu a galeria do celular. Havia uma fotografia tirada durante a tempestade. Na imagem, nós duas aparecíamos em frente ao antigo relógio da praça central da cidade. Estávamos completamente encharcadas. O mais estranho era que parecíamos olhar para o céu com expressões de puro horror. Atrás de nós havia várias outras pessoas fazendo exatamente a mesma coisa. Nenhuma delas sorria. Todas pareciam aterrorizadas.

O problema era que nenhuma de nós lembrava de ter ido até aquela praça. Nem sequer recordávamos de termos tirado aquela fotografia. Decidimos investigar. Depois das aulas, seguimos até a praça. O lugar estava vazio. O velho relógio continuava no centro, imóvel. Os ponteiros permaneciam parados exatamente às 17h42. Como se o tempo tivesse congelado naquele instante.

Enquanto caminhávamos ao redor do monumento, notei uma pequena inscrição gravada na base de pedra. Tenho certeza de que ela nunca estivera ali antes. Escrita com letras profundas, quase invisíveis, dizia: “Não procure respostas.”

Um arrepio percorreu minha espinha. Quem teria escrito aquilo? E por quê? Continuamos examinando o local. Atrás de algumas pedras antigas encontramos uma pequena caixa metálica enferrujada. Ela parecia estar escondida havia muitos anos. Quando a abrimos, encontramos dezenas de fotografias. Todas haviam sido tiradas durante a tempestade. E todas mostravam moradores da cidade.

Em cada fotografia, as pessoas olhavam assustadas para algum ponto acima da câmera. Como se observassem algo gigantesco no céu. Nenhuma imagem mostrava o que elas realmente estavam vendo. Viramos uma das fotografias.

No verso havia uma frase escrita à mão, com uma caligrafia trêmula: “Se a chuva voltar, não olhem para o céu.”

Laura empalideceu.

— Você acha que isso é uma brincadeira?

Antes que eu pudesse responder, um trovão rompeu o silêncio. O som ecoou por toda a praça. Levantamos os olhos.

O céu, que permanecera completamente limpo durante toda a tarde, começava a ser coberto por nuvens negras. O vento aumentou de intensidade. As árvores balançavam violentamente. Os pássaros desapareceram. O relógio da praça, parado havia dias, começou a funcionar sozinho.

Tique…

Taque…

Tique…

Taque…

De repente, meu celular vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido. Havia apenas uma frase. “Vocês já sabem mais do que deveriam.”

Meu coração disparou. Antes que eu pudesse responder, chegou outra mensagem. “Desta vez, não olhem para cima.”

Nesse instante, as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Laura segurou meu braço com força. Ela tremia. Então ouvimos um grito vindo do outro lado da praça. Um homem havia ignorado o aviso. Ele olhou para o céu. Seu rosto perdeu completamente a expressão. Seus olhos ficaram vazios. Segundos depois, caiu de joelhos.

Quando as pessoas correram para ajudá-lo, perceberam que ele repetia apenas uma única frase, sem parar:

— Eu vi… eles ainda estão lá…

Logo em seguida, o homem esqueceu o próprio nome. Esqueceu onde morava. Esqueceu quem era. Laura e eu fugimos dali sem olhar para trás. Enquanto corríamos, tive a impressão de que alguma coisa enorme atravessava lentamente as nuvens. Não tive coragem de levantar a cabeça para confirmar.

Naquela noite, a tempestade voltou. E, junto com ela, desapareceram novamente algumas horas da memória de toda a cidade. Até hoje, ninguém sabe o que realmente acontece quando aquela chuva cai. Mas os moradores de Santa Helena aprenderam uma única regra.

Quando o céu escurecer e a chuva começar… jamais olhe para cima.

Maria Alice Guedes Felipe

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