Na pequena cidade de Santa Helena, quase nunca acontecia algo fora do comum. As pessoas viviam tranquilamente, trabalhavam, estudavam e seguiam suas rotinas sem imaginar que, em uma única noite, suas vidas mudariam para sempre.
Tudo começou em uma sexta-feira, quando uma tempestade de proporções incomuns caiu sobre a região. Eram exatamente 23h34 quando uma ventania violenta tomou conta da cidade. O céu era iluminado por relâmpagos incessantes, e os trovões faziam as janelas das casas estremecerem. A chuva caía com tanta força que parecia capaz de arrancar as árvores pela raiz e carregá-las pelos ares.
Na manhã seguinte, Santa Helena já não era a mesma. Os moradores saíam de suas casas completamente desnorteados. Alguns olhavam ao redor como se nunca tivessem estado ali. Muitos não se lembravam dos próprios nomes. Outros haviam esquecido onde moravam. Alguns já não reconheciam seus familiares. Era como se parte de suas lembranças tivesse simplesmente desaparecido durante a noite.
O pânico espalhou-se rapidamente. Em poucas horas, a notícia chegou às cidades vizinhas e, logo depois, às autoridades estaduais. Foi então que o detetive Júlio Albuquerque, conhecido por solucionar casos considerados impossíveis, foi enviado para investigar o estranho fenômeno. Júlio era um investigador experiente, extremamente observador e cético em relação a histórias sobrenaturais. Para ele, todo mistério possuía uma explicação lógica.
Ao chegar à cidade, iniciou uma série de entrevistas com os moradores. Um senhor, ainda trêmulo, contou:
— Eu só me lembro da chuva… depois disso, minha mente ficou completamente vazia.
Uma mulher, visivelmente abalada, afirmou:
— Era como se alguém estivesse arrancando minhas lembranças uma por uma.
Quanto mais investigava, mais inquietante o caso se tornava. Todos os relógios da cidade paravam exatamente às 23h34 durante as tempestades. A energia elétrica caía sempre no mesmo horário. Mesmo dias depois, algumas pessoas continuavam sofrendo pequenos apagões de memória e desmaiavam sem qualquer explicação médica. Nenhum especialista conseguiu encontrar uma causa para aquilo.
Determinando descobrir a verdade, Júlio resolveu investigar sozinho uma antiga área abandonada próxima à floresta. Ali existia uma velha casa de madeira, evitada pelos moradores havia décadas. Diziam que ninguém que passasse uma noite naquele lugar voltava sendo a mesma pessoa.
A construção estava quase em ruínas. As janelas estavam quebradas. As paredes eram cobertas por símbolos estranhos, desenhados com uma tinta escura que parecia nunca secar. Com uma lanterna nas mãos, Júlio entrou lentamente. O interior era frio e silencioso. No centro da sala havia dezenas de velas acesas formando um círculo perfeito. Espalhadas pelo chão estavam fotografias de moradores da cidade. Ao lado delas, objetos pessoais: relógios, brinquedos, cartas e diários. Como se cada lembrança tivesse deixado também um pedaço de sua história.
Sobre uma antiga mesa repousava um enorme livro de capa negra, aberto em uma página repleta de símbolos e palavras escritas em um idioma desconhecido. Enquanto observava o livro, uma voz rouca ecoou pela casa:
— Você não deveria estar aqui.
Das sombras surgiu lentamente uma velha de aparência assustadora. Sua pele era extremamente pálida. Os olhos pareciam completamente negros. Vestia roupas igualmente negras e carregava no pescoço um colar feito de pequenos ossos humanos entrelaçados por fios escuros. Júlio manteve a calma.
— Foi você quem fez isso com a cidade?
A velha sorriu lentamente. Seu sorriso parecia impossível para um rosto humano.
— Essas pessoas possuem algo muito mais valioso que ouro… suas memórias.
Ela caminhou lentamente ao redor do detetive.
— Cada lembrança roubada prolonga minha vida. Cada tempestade me torna mais jovem.
Júlio compreendeu. A mulher praticava uma antiga magia proibida. Durante as tempestades, realizava um ritual que retirava parte das memórias dos habitantes e transformava aquela energia em força vital. Segundo ela própria, já vivia havia mais de cento e cinquenta anos.
— Enquanto houver pessoas para esquecer… eu jamais morrerei.
Naquele instante, um raio atingiu a floresta. As paredes da casa estremeceram. As velas começaram a apagar uma a uma. As sombras pareciam ganhar vida e caminhar pelo teto. Júlio percebeu que o livro continha não apenas os feitiços, mas também o ritual que sustentava os poderes da velha. Sem hesitar, arrancou as páginas centrais e lançou o livro inteiro na lareira acesa. Assim que as chamas consumiram a primeira página, a velha soltou um grito desesperador. Sua pele começou a envelhecer rapidamente. Os cabelos embranqueceram. Seu corpo tornou-se cada vez mais frágil.
— Não! Você não entende o que está fazendo!
A casa inteira começou a tremer violentamente. As paredes racharam. As janelas explodiram. Uma força invisível percorreu todos os cômodos. Júlio correu em direção à saída. Poucos segundos depois de deixar a casa, a construção desabou completamente sob a tempestade. Quando o sol nasceu na manhã seguinte, a chuva finalmente cessara.
Pouco a pouco, os moradores começaram a recuperar suas lembranças. Pais reconheceram seus filhos. Amigos voltaram a recordar seus nomes. Histórias esquecidas retornaram à memória de cada habitante. Santa Helena parecia finalmente livre da maldição. Ou pelo menos era o que todos acreditavam.
Antes de deixar a cidade, Júlio decidiu visitar pela última vez as ruínas da antiga casa. Enquanto caminhava entre os destroços, algo chamou sua atenção. Entre as pedras queimadas havia um pequeno colar negro, intacto. Era exatamente o mesmo colar usado pela velha. Movido pela curiosidade, ele o pegou.
No instante em que seus dedos tocaram o objeto, uma voz sussurrou junto ao seu ouvido:
— Isso… ainda… não acabou…
Assustado, Júlio deixou o colar cair imediatamente. Quando olhou novamente para o chão… O objeto havia desaparecido. Até hoje, durante tempestades intensas, moradores de Santa Helena afirmam ouvir vozes sussurrando entre as árvores da floresta. Algumas pessoas ainda acordam sem se lembrar do dia anterior. E há quem diga que, exatamente às 23h34, é possível ver uma velha de roupas negras caminhando entre os relâmpagos, carregando um livro antigo nos braços.
Ninguém sabe se ela realmente morreu. Ou se apenas espera, pacientemente, pela próxima noite de tempestade para voltar a roubar as lembranças daqueles que ousarem permanecer acordados.
Heladya Hellen da Silva Felipe
