O mistério

“Procura-se Luma de Alcântara, doze anos, pele clara, olhos verdes, aproximadamente um metro e quarenta e quatro de altura. Foi vista pela última vez perto da Escola Estadual da Floresta (EEF) José Loureiro da Silva. Qualquer informação, ligar para: +92 77 9478-1833. Recompensa no valor de 38 mil reais.”

Esse era o assunto do momento na cidade de Manaus. A menina desaparecida sumira sem deixar pistas. Já fazia uma semana desde o desaparecimento, e ninguém sabia de nada.

Uma semana antes do sequestro

Às doze e quarenta e cinco da tarde, Luma já não suportava mais sua rotina. Se tirava notas baixas na escola, sua mãe a punia severamente. Se se recusasse a ajudar os pais no trabalho, também era castigada. Perdida nesses pensamentos, não percebeu a tempo que estava sendo seguida.

O homem parecia ter vinte e poucos anos. Era alto, usava uma máscara e vestia roupas que cobriam todo o corpo. Luma sentiu um arrepio quando percebeu a presença dele. Seu coração acelerou. Ela tentou correr, mas ele foi mais rápido. Antes que pudesse gritar, o homem pressionou um pano contra sua boca. Um cheiro forte invadiu suas narinas, e então tudo escureceu.

Sete horas após o sequestro

Luma acordou com uma sensação estranha. Seu corpo estava pesado, e sua visão, embaçada. Ela tentou se mexer e sentiu um colchão sob si—velho e desconfortável. O medo a dominou. Ouviu passos. O som de uma fechadura girando. Prendeu a respiração. A porta se abriu lentamente, e o sequestrador entrou — sem máscara. Luma ficou em choque.

— Calma, Luma. Sou eu, Matteo, seu primo. Você se lembra de mim?

Ela piscou, confusa. Matteo… Seu primo?

— Matteo? O que eu estou fazendo aqui? Foi você que me sequestrou? — perguntou, levantando-se rapidamente.

Matteo suspirou.

— Me desculpa, Luma… Eu só queria te tirar daquele inferno.

— Do que você está falando?

— Acha que eu nunca percebi? Toda vez que alguém ia na sua casa, você não saía do quarto. No aniversário do seu pai, você ficou trancada. E quando fui te ver, vi os hematomas nos seus braços.

Os olhos de Luma se encheram de lágrimas.

— Aquilo era desumano. Mas se quiser ir embora, pode ir. Só que lá seus pais vão continuar te machucando. Aqui, você pode ter uma vida diferente.

Luma hesitou. Seu coração batia acelerado.

— Se eu ficar… Você me deixa tocar piano? — perguntou com a voz embargada. Matteo sorriu.

— Claro. Sei que esse sempre foi o seu maior sonho. A única coisa que eu quero é te ver feliz.

Ela o encarou, refletindo. Seria tão errado aceitar?

— Ok… Eu fico. Não aguento mais meus pais. Dói. Tudo dói.

Matteo assentiu.

— Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.

Cinco anos depois

“A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi o meu sequestro.” Luma pensava nisso enquanto seus dedos deslizavam sobre as teclas do piano. Seus olhos brilhavam com cada nota. Até hoje, ela não sabia onde estava, mas isso não importava. Matteo ensinou tudo o que ela sabia sobre piano. Ele a ajudou a construir uma vida nova.

Lá fora, porém, o mistério continuava. Onde estava Luma de Alcântara?

E essa era a pergunta que jamais teria resposta.

Geísa Silva Mascarenhas.



Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *