A Grande Ponte

Há muito tempo, em um reino tão antigo que o tempo ainda nem existia, morava Tenório, o mais novo rei. Todo o reino era cercado por um imenso mar, onde os moradores eram proibidos de se aproximar, pois diziam as más línguas que aquelas águas poderiam levá-los a um caminho que os afastaria do bem.

Neste reino também morava a bondosa Giovanna, filha de uma camponesa. Giovanna trabalhava como conselheira do rei, usando sua inteligência sem igual. Ela e sua mãe, dona Benê, viviam às margens do reino. Giovanna costumava encostar os dedos dos pés nas águas do mar, sempre movida pelo instinto de conhecer mais sobre o que havia além dali.

Os dias naquele reino eram diferentes: eles se passavam, mas era como se não passassem; tudo permanecia sempre igual. Durante a Reluzente, como era conhecida a noite, Giovanna ficou observando o horizonte, imaginando o que poderia haver além da grande rocha que sustentava o reino. E, no fundo de sua visão, na imensidão do mar, ela viu uma luz de vela que balançava como se estivesse sobre um solo não fixo. Pelo tamanho da luz, do ponto de vista de Giovanna, ela deveria estar bastante distante — mas se aproximava lentamente.

Assustada, Giovanna correu para dentro de casa para avisar sua mãe, mas ela já dormia. E quando dona Benê caía no sono, nem o rugido de um dragão seria capaz de acordá-la. Assim, Giovanna deitou-se, tentando processar o que havia visto, mas acabou adormecendo antes de chegar a uma conclusão.

Na manhã seguinte, enquanto dona Benê preparava o café, Giovanna aproximou-se com uma dúvida:

— Mãe, o que há além do mar?

Dona Benê a olhou, surpresa:

— Como assim, filha? Além do mar há apenas mais água… e mar.

— Não foi isso que quis dizer. Quero saber se há outras pessoas além dos moradores do reino, outras civilizações… Por exemplo, se alguém navegasse…

Neste instante, dona Benê cravou suas mãos nos braços da filha e a interrompeu:

— Navegar? Você não está pensando em se meter nesse monte de água, está? Pois se é isso, pode tirar o seu cavalo da chuva!

E saiu atribulada, deixando o leite que preparava queimar.

Dias se passaram, e Giovanna continuava observando as luzes, que, cada vez mais, se aproximavam do reino. Após algumas semanas, ao acordar, ouviu diversos murmurinhos vindos de fora de casa. Levantou-se e vestiu-se rapidamente. Ao olhar pela janela, viu os moradores reunidos, todos olhando para o mar.

Giovanna juntou-se à multidão e, espremendo-se entre os curiosos, chegou à frente. O que viu a deixou boquiaberta: uma imensa rocha flutuante surgia no mar, mas ela não vinha sozinha. Sobre ela, havia uma espécie de reino — diferente do que ela conhecia.

As diferenças eram evidentes: o chão era de terra, as construções de taipa, e havia muitas árvores. De entre alguns arbustos, surgiu um homem alto e robusto. Sua pele era escura, o corpo pintado com tinta vermelha, e sua única vestimenta era um tecido que cobria as partes íntimas. Ele levantou a mão, acenando para os moradores, que o olhavam pasmos.

— Não tenham medo — disse ele, com um sotaque estranho. — Viemos em missão de paz e conhecimento.

Giovanna deu alguns passos à frente e, em voz alta, tentou estabelecer diálogo:

— Quem são vocês? O que querem aqui?

— Você é a líder deste povo?

— Não, mas sou conselheira do rei.

— Rei? Se é assim que vocês chamam seu líder… gostaria de falar com ele.

— Vou informá-lo.

Giovanna correu como nunca até o castelo. Informou ao rei Tenório sobre a chegada dos forasteiros. Ele convocou os guardas e partiu montado em seu cavalo branco.

Assim que viu o homem robusto, o rei apontou-lhe a espada. Mesmo à distância, o visitante sentiu-se ameaçado.

— Quem são vocês? O que querem no meu reino? — perguntou Tenório, em tom agressivo.

— Não queremos guerra nem violência. Somos um povo nômade em busca de um lugar onde possamos nos instalar. Somos pacíficos.

— Pacíficos? Cidadãos verdadeiros não andam praticamente nus! — retrucou o rei. Giovanna tentou intervir:

— Majestade, talvez seja apenas o modo de se vestirem.

— Que povo primitivo, com casas tão rudimentares… parecem os povos descritos no livro de meu pai…

— Livro? Que livro, majestade? — indagou Giovanna.

Tenório ignorou a pergunta:

— Repito: o que realmente vocês querem?

— Apenas um lugar onde possamos viver em harmonia. Podemos ensinar muito com nosso modo de vida — e aprender também com o de vocês.

Tenório pareceu processar as palavras, então puxou as rédeas do cavalo e voltou apressado ao castelo. Giovanna estranhou a reação e o seguiu.

Conhecedora dos corredores do palácio, entrou no quarto do rei e o encontrou boquiaberto, com um livro antigo nas mãos.

— O que houve, majestade?

— Giovanna, eu pensei que fosse delírio do meu pai, mas pode ser verdade! Este livro pode ser real.

— Que livro?

— Meu pai acreditava que, após sua morte, um povo desconhecido chegaria até nós. Um povo que traria novos conhecimentos. Ele registrou isso aqui — disse, mostrando as páginas amareladas.

— O senhor acha que esse povo é o mesmo descrito pelo seu pai?

— Na verdade… não sei. O livro não tem ilustrações. Não posso ter certeza das intenções deles. E se for uma armadilha?

Giovanna afastou-se e, com firmeza, respondeu:

— Desculpe, majestade, mas discordo. O senhor está julgando com base em preconceitos. Como conselheira, peço que reflita sobre as oportunidades que esse povo pode trazer.

Ela se retirou, deixando o rei pensativo.

Dias passaram. O rei, ainda indeciso, recebeu uma notícia urgente: a rocha flutuante que sustentava o outro povo estava sendo levada pela correnteza. Era preciso agir.

Tenório dirigiu-se à vila dos camponeses, foi até a beira do mar e chamou novamente o líder dos forasteiros. Ambos os povos se aproximaram. Quando o homem chegou, o rei falou em voz alta:

— Passei dias e Reluzentes sem dormir. No início, achei perigoso confiar em forasteiros. Mas percebi o poder que tenho em mãos: o poder de construir muros ou pontes. E escolhi as pontes. Escolhi o conhecimento. Vamos construir, juntos, uma ponte resistente que una nossos reinos!

O povo aplaudiu, de ambos os lados. Homens e mulheres se uniram e, com recursos dos dois reinos, começaram a construção da Grande Ponte. E ela foi erguida com tanta força que nem o maior dragão dos dois mundos seria capaz de destruí-la.

A partir daí os povos passaram a se conhecer melhor, trocar saberes, técnicas, histórias e modos de vida. E, assim, os reinos prosperaram em paz, revelando que construir pontes sempre será a melhor escolha.

Leonardo Silva Nascimento



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