Amélia era uma jovem camponesa de coração puro, generosa e dona de um sorriso doce. Apesar de sua bondade, vivia dias difíceis desde que seu pai, Jerry, se casara novamente. Sua madrasta, Gothel, a tratava com desprezo e fazia de tudo para humilhá-la. O pior de tudo era que Jerry não percebia o sofrimento da filha, pois acreditava cegamente na falsa gentileza da esposa.
Gothel era uma mulher de rara beleza, mas de coração frio e extremamente orgulhosa. Manipuladora, amarga e de língua afiada, escondia sua verdadeira personalidade atrás de uma aparência elegante e de um comportamento delicado diante de Jerry. Quando estavam sozinhas, porém, transformava-se em alguém cruel e impiedoso.
Certa tarde, Amélia decidiu conversar mais uma vez com o pai, na esperança de que ele finalmente enxergasse a verdade.
— Pai, por favor, me escute. A Gothel não é a mulher que o senhor pensa. A mamãe era mil vezes mais doce, carinhosa e honesta do que ela!
Jerry suspirou, já impaciente.
— Amélia, nós já conversamos sobre isso. Você insiste em criar conflitos entre nós. A Gothel é uma mulher boa e gentil. Tenho certeza de que, com o tempo, vocês vão se entender.
— Mas, pai, o senhor não sabe o que ela faz quando…
— Chega, Amélia! Vá para o seu quarto imediatamente!
Sem conseguir convencê-lo, Amélia subiu as escadas com os olhos cheios de tristeza. Sentia-se completamente sozinha.
Da janela do corredor, Gothel observava toda a conversa com um sorriso de satisfação. Assim que Amélia chegou ao segundo andar, deu de cara com a madrasta.
— Não me viu aqui, querida? — Perguntou Gothel, com um sorriso debochado.
— Vi, sim. Difícil não perceber alguém que vive fingindo ser quem não é.
O sorriso desapareceu do rosto de Gothel.
— Olhe os seus modos, Amélia!
— Eu deveria olhar os meus? Quem deveria rever os próprios modos é você. Vive enganando meu pai e se fazendo de boazinha.
Gothel aproximou-se lentamente.
— Escute bem. Enquanto eu estiver nesta casa, você será completamente esquecida. Já ocupei o lugar da sua mãe ao lado do seu pai… agora só falta ocupar o seu lugar nesta família. Então escolha: ou aprende a me obedecer ou sofrerá as consequências.
Amélia ergueu a cabeça.
— Nunca! Você só pensa em manipular as pessoas. Respeito se conquista, não se impõe. Enquanto continuar tratando os outros com arrogância, jamais será tratada como merece.
— Você está desafiando…
Antes que Gothel terminasse a frase, Amélia passou por ela, esbarrando levemente em seu ombro, entrou no quarto e fechou a porta.
Do lado de fora, Gothel cerrava os punhos de ódio.
— Você ainda vai se arrepender, Amélia…
Naquela noite, Amélia permaneceu horas pensando em uma maneira de se livrar da perseguição da madrasta. O cansaço venceu, e ela acabou adormecendo profundamente.
Quando chegou a hora do jantar, Jerry estranhou a ausência da filha.
— Gothel, querida, vá chamar Amélia. Ela nunca perde o jantar.
— Claro, meu amor. Vou chamá-la agora mesmo.
Ela subiu as escadas.
— Amélia… seu pai está esperando você para jantar.
Nenhuma resposta.
Achando que a jovem a estava ignorando de propósito, Gothel desceu furiosa até a cozinha. Enquanto servia o prato destinado à enteada, retirou discretamente um pequeno frasco escondido no bolso do vestido.
Com um sorriso perverso, pingou algumas gotas de veneno para ratos sobre a comida e misturou tudo cuidadosamente.
Depois voltou ao quarto.
— Amélia! Estou chamando pela última vez!
A jovem acordou assustada.
— Já estou indo.
Ao sentar-se à mesa, observou o prato atentamente.
— Pai… quem preparou o jantar hoje?
— Foi a Gothel. Algum problema?
Amélia respirou fundo.
— Eu não vou comer.
Jerry perdeu a paciência.
— Amélia, outra vez?
Gothel interrompeu com falsa delicadeza.
— Minha querida… fiz tudo com muito carinho. Há algum problema?
Amélia olhou diretamente para ela.
— Sim. Eu não confio em você. Tenho certeza de que fez alguma coisa com essa comida.
Jerry levantou-se da cadeira.
— Pelo amor de Deus, Amélia! Isso já passou dos limites!
— Então prove primeiro, pai. Se ela realmente não colocou nada, o senhor não terá problema em comer.
Por um instante, Gothel empalideceu.
Jerry percebeu a mudança na expressão da esposa.
— Gothel… por que você ficou nervosa?
Ela sorriu rapidamente.
— Nervosa? Claro que não…
Mas Jerry já havia começado a desconfiar.
Sem dizer mais nada, Amélia levantou-se da mesa.
Pegou alguns pães, uma maçã e voltou para o quarto.
Mais tarde, Gothel decidiu enfrentá-la novamente.
— Amélia…
— Não adianta insistir. Eu jamais vou comer algo preparado por você.
— Você está sendo ridícula.
— Ridícula? Ridículo é achar que ninguém percebe suas mentiras. Eu vi quando você mexeu na minha comida.
Gothel fingiu indignação.
— Você está imaginando coisas!
— Não. Estou enxergando quem você realmente é.
A máscara de Gothel caiu.
— Pois escute bem: daqui para frente, sou eu quem manda nesta casa. Ou você come a minha comida… ou passa fome!
— Prefiro procurar alimento na floresta do que aceitar qualquer coisa feita por você.
Naquela noite, Amélia caminhou até o jardim para respirar um pouco e organizar os pensamentos.
— Não posso continuar vivendo assim…
Jerry apareceu na varanda.
— Filha… entre, por favor. Precisamos conversar.
Mais tarde, longe dos ouvidos de Gothel, Jerry revelou algo inesperado.
Nos últimos dias, ele começara a notar pequenas contradições no comportamento da esposa. Por isso, havia instalado discretamente câmeras em alguns cômodos da casa para descobrir a verdade. Pediu que Amélia fingisse agir normalmente enquanto reunia provas.
Ela concordou.
Já passava da meia-noite quando Gothel colocou seu plano em prática.
Entrou silenciosamente no quarto de Amélia segurando uma seringa cheia de veneno.
A jovem acordou imediatamente.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim resolver um problema que já dura tempo demais.
Amélia olhou para a seringa.
— Você pretende me matar?
Gothel sorriu friamente.
— Exatamente.
Ela avançou.
Amélia reagiu rapidamente, mordeu o braço da madrasta e conseguiu escapar.
Sem pensar duas vezes, pulou pela janela, exatamente como Jerry havia orientado caso algo acontecesse.
Furiosa por perder a oportunidade, Gothel teve uma ideia desesperada.
Aplicou a própria seringa superficialmente no pescoço, apenas o suficiente para deixar uma pequena marca, e começou a gritar.
— Jerry! Socorro! Amélia tentou me matar!
Jerry entrou correndo.
— O que aconteceu?
— Sua filha fez isso comigo e fugiu pela janela! Prenda aquela garota!
Jerry permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois sorriu.
— Acabou, Gothel.
Ela ficou confusa.
— Como assim?
— As câmeras gravaram tudo. Gravaram você colocando veneno na comida de Amélia. Gravaram você entrando no quarto com a seringa. E também gravaram você provocando esse ferimento para incriminar minha filha.
O rosto de Gothel perdeu toda a cor.
— Não… isso não pode…
Nesse instante, policiais entraram na casa.
— Senhora Gothel, a senhora está presa por tentativa de homicídio, envenenamento, falsa denúncia e maus-tratos.
Ela foi levada algemada, ainda tentando negar tudo.
Dias depois, Jerry pediu perdão à filha por nunca ter acreditado nela. Amélia o abraçou emocionada.
Pouco tempo depois, Jerry reencontrou a mãe biológica de Amélia, de quem havia se separado anos antes por causa das manipulações de Gothel. Ao descobrir toda a verdade, os dois reconstruíram a família.
Amélia finalmente voltou a viver cercada pelo amor que sempre mereceu.
E Gothel, pela primeira vez, descobriu que nenhuma mentira dura para sempre e que toda maldade, cedo ou tarde, acaba encontrando seu próprio fim.
Maria Isabela de França Lima
