Por amor, voltarei

A cidade espiritual Nosso Lar é um lugar onde espíritos desencarnados encontram refúgio para descansar ou se dedicar a trabalhos que lhes dignifiquem. Em Nosso Lar, os espíritos podem estudar e aprender, até se sentirem prontos para reencarnar na Terra, forma de buscar a própria evolução espiritual.

Dois recém-desencarnados chegam à colônia e são calorosamente recebidos pelos espíritos de luz Chica e Ana Rosa. As duas já vivem em Nosso Lar há seis anos. No início, tudo foi difícil para Ana Rosa, que, em vida, acreditava que a existência se encerrava com a morte. Já para Chica, o processo foi mais suave, pois ela sempre acreditou na vida após a morte.

 

Com o tempo, tornaram-se grandes amigas, tão próximas que seriam capazes de “morrer novamente” só para não se separarem. Mas nem tudo acontece como esperamos.

Geralmente, os próprios espíritos escolhem quando e se querem reencarnar. Porém, desta vez seria diferente. Chica foi convocada pelo ministro Clarêncio, um dos mais importantes de Nosso Lar. O assunto era urgente e de grande importância.

Nas esferas superiores, Clarêncio indicava uma espécie de telão que flutuava diante de Chica.

— Nossos mensageiros andaram observando sua família. Não os espionamos nem nos esgueiramos pelas sombras, mas sabíamos que algo não ia bem por lá. Por consideração a você, a convoquei aqui — disse ele, aproximando-se da tela, que agora exibia a imagem de uma jovem acariciando a própria barriga.

— Há uma jovem em sua linhagem, sua bisneta direta, que enfrenta um dilema profundo. Está grávida, mas o medo e a juventude a fazem querer desistir da maternidade. Sua mãe tenta impedi-la, mas as sombras e os pensamentos intrusivos vêm ganhando força em sua mente em formação. E mesmo que ela não saiba, está precisando muito da sua ajuda.

— Mas como posso ajudá-la daqui? Fazendo uma visita em sonho?

— Eu te pediria algo maior. Pensamos em uma atitude de força e amor. Você poderia reencarnar como o filho dela. Assim, estaria ligada a ela espiritual e carnalmente. É claro que você não a influenciaria por completo, mas, mesmo inconscientemente, ela sentiria a ligação familiar. E respeitaremos o livre-arbítrio dela. Mas só se você quiser — é apenas uma sugestão pensando no bem da jovem.

— E se, mesmo assim, ela decidir não levar a gravidez adiante? O que acontecerá comigo?

— Posso ouvir seus pensamentos, Chica. Saiba que você não voltará ao mundo espiritual como um feto. Se, infelizmente, ela decidir interromper a gestação, você retornará como está agora. Como já disse Allan Kardec: “Que faz o Espírito se o corpo que ele escolheu morre antes de se verificar o nascimento”?

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Chica, e ela completou a frase de Clarêncio:

“Escolhe outro”. Preciso pensar, ministro. E conversar com alguém importante.

— Vá. Tome seu tempo.

Apesar de a proposta ser dirigida somente a Chica, ela sabia que não poderia tomar essa decisão sem antes falar com Ana Rosa. Encontrou a amiga à beira de um lago e contou tudo. Ao ouvir, Ana Rosa ficou dividida.

— Voltar à Terra? Agora? Por quê?

— Eu já expliquei, minha bisneta está precisando de mim.

— Mas você nem a conhece.

— Não a conheci na vida terrena, mas a vi. Ela é linda, jovem, cheia de vida. O nome dela é Sofia. Ela não pode abandonar essa chance de crescer, de evoluir! Ela não pode tirar essa criança… Isso seria ir contra a lei de Deus!

— Mas você não precisa mais disso. Não precisa reencarnar.

Eu não preciso. Mas ela precisa de mim. Peço que entenda isso.

— E se eu nunca mais te ver?

— Já estamos aqui há muito tempo, e sabemos que não existe essa de “nunca mais te ver”. Pelo menos não enquanto uma de nós ainda estiver aqui. Você poderá me acompanhar de longe.

— Não vai ser a mesma coisa.

— Mas eu te peço: me entenda. Sei que, se fosse você no meu lugar, faria o mesmo.

Ana Rosa então se aproximou da beira do lago. Tocou a água com a ponta do dedo e, naquele instante, foi como se a própria água lhe transmitisse sabedoria. Ana sentiu a paz da compreensão.

— Tudo bem, Chica. Eu entendo. Sei que o que você vai fazer é certo. Não um “certo” obrigatório, mas um certo que nasce do amor. Pode ter certeza de que estarei aqui, te olhando, te guardando. Vou te ver crescer.

E assim foi. Com a permissão de Clarêncio, Chica iniciou o processo de reencarnação. Mas antes que fosse completamente encarnada, ainda era necessária a escolha de Sofia, sua bisneta, de manter a gestação.

Sofia passou noites em claro, pensativa, com uma sensação inexplicável de que deveria seguir adiante. Algo dentro dela lhe dizia que aquele bebê precisava nascer. E então, a decisão foi tomada: ela manteria a criança. Já começava a pensar em nomes, caso fosse menina ou menino.

E Ana Rosa? Com a ajuda de Clarêncio, percebeu cada vez mais que Chica havia feito a escolha certa — assim como Sofia. E lá de Nosso Lar, Ana esperou o nascimento de Chica, que agora se chamaria Ana Luíza. Sofia, ao descobrir o sexo da filha, sentiu que deveria chamá-la de Ana — sem saber por quê, mas com uma certeza silenciosa no coração.

De longe, Ana Rosa observou a nova vida de Chica. Como se estivesse lá, ao lado dela. E, de certa forma, estava.

“A morte é apenas a destruição do envoltório corporal, que a alma abandona, como o faz a borboleta com a crisálida, conservando, porém, seu corpo fluídico ou perispírito.”
— Allan Kardec.

Todos os elementos usados para construção desse texto foram retirados, inspirados e adaptados da Doutrina Espírita e do livro Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier.

Leonardo Silva Nascimento.

 

 

 

 

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