Dias cinzas e aves de presságio. Avistava ambos sobre o horizonte, fundidos no cume das velhas casas que beiravam o rio. As aves, muitas: chegando, pousando, agourando e partindo. Eu cá, admirando suas cantigas de lamúria e imaginando ser aquele prenúncio dirigido a mim. Desde então, submergi na alma, num pensar profundo: fosse aquele o meu último dia de habitar a terra, quais ocupações far-me-iam sentir que vivi?
Por um instante, desejei voltar às entranhas de minha mãe. A morte estremece-me o peito; tenho medo do desconhecido. Penso que a morte seja cair no vazio — aquele mesmo que beiramos por toda a vida. Só mesmo o calor daquele ventre, espremendo-me entre as carnes, faria compreender que, de fato, existo.
Em outro instante, lembrei-me de sair no breu da noite até o fim do corredor de minha casa, em busca de matar a sede. Assustada, com medo do vazio no escuro, assoviava uma melodia de ninar, como se o som fosse um útero ou outra barreira protetora. O som preenchia aquele vazio entre o quarto e a cozinha. A voz de minha mãe preencheu tantos vazios em mim, entoando qualquer canção… Talvez, se eu cantasse eternamente, pudesse contornar a morte. Talvez. (Mas, se a voz em mim também se calasse, o que eu seria?)
O cantar das aves, agora em bando, arrancou-me do delírio. Cada vez que as ouvia, algo em mim agonizava. Agora, pareciam entoar uma prece para que eu partisse em paz para lugar nenhum. Não me despedi de minha mãe, de meus irmãos e da nossa velha casa. Não cheirei as flores no quintal, como fazia ritualmente todos os dias. Não falei aos meus amores; não escrevi; não olhei o céu com a atenção que deveria. Não contemplei tão bem as estrelas; não segurei filho no colo. Não vi o tempo pintar de alvo os cabelos de minha mãe, nem lhe disse que a amo hoje. Não encontrei todas as versões de mim; não aprendi a costurar, como insistira minha avó. Não fiz meu último poema; não pensei as vestes fúnebres. Havia tanto a ser dito, sentido, amado…
Corri ao encontro dos passarinhos; balancei uma das árvores menores do mangueiral até que saíssem, mais de vinte aves voando em silêncio. Tentei gritar, mas não conseguia. Sussurrei, baixinho: ainda existo. E corri, em desespero, para os braços do até-nunca, de olhos fechados, até avistar o telhado de minha casa.
— Áurea!
Exclamou minha irmã. Perguntou-me, espantada:
— Para onde vais?
Respondi que não sabia.
Abri os olhos, e meu horizonte era o cume da minha casa. Meus três irmãos arrastavam a ovelha que meu pai havia sangrado — limpa, sem entranhas. Tinham-na limpado à beira do rio. Minha mãe não aceitava que víssemos nenhum abate; queria poupar-nos das sangrias. Chamei seu nome à porta e entrei casa adentro, cantarolando uma música da qual já não me recordo.
Maria Larissa Félix
