Em mais um dia normal, Rafael e seu irmão Miguel estavam brincando na terra seca e oca, fazendo artimanhas e improvisando risos entre si. Os dois irmãos eram inseparáveis e viviam correndo entre as árvores secas do quintal.
Em meio à brincadeira, o pai de Rafael e Miguel, senhor Altair, os chamou:
— Miguel, Rafael, venham cá!
— Sim, senhor!?
— Vocês já pegaram as coisas para a nossa mudança?
— Como assim, mudança, papai?
— Sua mãe não falou nada para vocês?!
— Não, senhor!
— Então comecem a se preparar! Estamos passando por um período terrível aqui onde vivemos. Vocês ainda não repararam?
Os dois irmãos se olharam confusos. Logo depois, observaram ao redor e perceberam certa verdade na fala do pai: onde havia plantas, agora só havia galhos secos; o pé de bananeira, antes colorido e firme, agora ameaçava cair, sem cor e sem vida.
— Por que tudo está tão sem vida assim, papai?
Altair ficou mudo. Apenas mandou os dois filhos arrumarem as malas para irem embora. Com a esposa e os filhos dentro do antigo carro da família, um Ford modelo T, ele começou a falar sobre a atual situação.
— Meus filhos, quero que me ouçam agora.
Os meninos ficaram em silêncio, e Altair explicou:
— Nosso solo já não é mais o mesmo, crianças. Faz meses que não temos chuva e nenhum sinal de água. Vivemos tranquilos até agora porque nossa família é muito próspera, mas nem tudo é para sempre. Nossa casa, antes de barro firme, hoje se encontra rachada e com falhas. O nosso gato Frederico está magro, quase doente, e a única solução que temos, infelizmente, é… sair daqui.
Ele disse isso com os olhos cheios de lágrimas, por deixar a terra onde seus pais e avós um dia viveram.
Durante a migração, vieram vários desafios: fome, sede e tristeza. Mas, em meio a isso, Altair tinha certeza de que teriam oportunidades melhores em Sobral.
Chegada a Sobral
Ao chegar em Sobral, Altair e sua família foram enviados a um campo de concentração, onde passaram a viver com isolamento; fome — pois a comida era escassa —; sede — já que a água não era potável — e, o mais grave, a falta de espaço e liberdade. Todos ali estavam sujeitos à mesma miséria e ao mesmo destino.
O pai de Rafael e Miguel, antes forte e saudável, agora se encontrava à beira da morte, vítima de uma doença que devastava o coração da família. Altair foi guerreiro e sereno até o fim da vida e, em suas últimas palavras, disse aos filhos e à esposa:
— Não sabia que este lugar era uma prisão. Peço desculpas a vocês, minha família. Espero que um dia consigam sair deste lugar.
E logo em seguida, Altair partiu.
Com isso, seus filhos e esposa se revoltaram e organizaram uma rebelião contra as forças do campo de concentração de Sobral, conseguindo fugir. Por uma coincidência do destino, Padre Cícero estava passando pela cidade, fazendo suas pregações, quando viu a família jogada à beira da rua, apenas à espera da morte, e lhes ofereceu um lugar para ficar.
Mas já era tarde: a mãe de Rafael e Miguel já não tinha a mesma saúde. Foram sete anos presos, sem saneamento e sem comida de qualidade. Apenas os dois irmãos resistiram até a chegada à pousada de Padre Cícero. Sua mãe, Rita, veio a falecer de um tumor que estava alojado há anos.
A morte de Miguel
A notícia chegou como um trovão em um céu sem nuvens. Miguel, com seus doze anos ainda cheios de curiosidade, começou a sentir dores que nenhum remédio conseguia aliviar. O diagnóstico foi rápido e frio: um tumor agressivo nos ossos, que avançava como um fogo silencioso. Cada dia era uma luta contra a própria fragilidade do corpo, e o sorriso que antes iluminava os cantos da casa começou a se apagar lentamente.
Rafael acompanhava o irmão nas sessões de tratamento, segurando sua mão fria enquanto o médico falava em termos que pareciam uma língua distante e dura demais para compreender. Nas noites em que o silêncio da enfermaria era quebrado apenas pelo som dos aparelhos, Miguel sussurrava histórias de brincadeiras antigas, como se quisesse guardar na memória do irmão tudo o que ainda não havia vivido. Rafael, com o coração apertado, prometia que tudo ficaria bem, mesmo quando a esperança já tremejava nas pontas dos dedos.
Quando a dor se tornou insuportável e o corpo de Miguel começou a desistir, ele olhou nos olhos do irmão e, com a voz embargada, disse:
— Quero que você continue a brincar, irmão. Quero que faça o mundo ouvir o nosso riso.
A última lágrima que escorreu pelo rosto de Miguel foi acompanhada por um sorriso tímido, como se estivesse entregando ao irmão a missão de viver pelos dois.
A queda e o retorno de Rafael
A partida de Miguel foi um golpe brutal. Rafael sentiu o chão tremer sob seus pés, como se a própria terra — a mesma que o havia abandonado na infância — agora lhe arrancasse um pedaço da alma. O vazio que ficou era imenso, preenchido por lembranças que ecoavam nos corredores da casa: o som da bola de futebol improvisada, as risadas compartilhadas na varanda, o cheiro de terra molhada depois da chuva. Cada detalhe era uma lâmina afiada, lembrando-lhe o que fora perdido.
A dor transformou-se em raiva, e a raiva, em desespero. Rafael se afastou de tudo e de todos, mergulhando em bebidas e vícios, tentando afogar a saudade que o consumia. A igreja, o Padre Cícero — tudo ficou para trás, sombras de um passado que parecia não lhe pertencer mais.
Mas, em um dia de chuva, quando o céu chorava com força e relâmpagos rasgavam o horizonte, Rafael subiu ao penhasco que marcava o fim de sua descida ao abismo. Prestes a se lançar, lembrou de Miguel, das últimas palavras, da terra antiga e da infância que ainda vivia dentro dele. Então, pela primeira vez em meses, ele recuou.
Decidiu voltar.
O recomeço
Ao regressar, encontrou a antiga casa da família — agora habitada por outras pessoas — e reencontrou velhos conhecidos que ainda lembravam de Altair e Rita. Nessas visitas, conheceu também uma jovem moça, doce e serena, que cuidava da pequena capela da comunidade. Com o tempo, os dois se aproximaram, e Rafael voltou a encontrar no sorriso dela uma nova forma de esperança.
Casaram-se anos depois e tiveram três filhos. E, ao ver aquelas crianças correndo pelo terreiro, Rafael entendeu:
Mesmo quando a terra racha e o mundo parece ruir, a vida encontra um jeito de florescer outra vez.
Izael da Silva Santos