O Lobo Faminto

Em uma pequena cidade do interior, existia uma antiga casa de campo cercada por uma floresta densa. Durante quase todo o ano, ela permanecia vazia, sendo ocupada apenas por turistas em épocas de férias e festas juninas.

Os moradores evitavam comentar um estranho acontecimento que se repetia todas as noites de São João, especialmente quando a lua cheia iluminava o céu. Nessas noites, alguém batia três vezes na janela da casa. Sempre. Mas, quando alguém olhava para fora, não havia ninguém.

Os poucos turistas que presenciavam aquilo geralmente iam embora antes de descobrir a verdade. Os moradores apenas repetiam um antigo aviso:

— Nunca abra a janela. Nunca responda ao chamado.

Certa noite de São João, um jovem casal alugou a velha casa para passar o fim de semana. A chuva havia parado havia pouco tempo, e a enorme lua cheia iluminava o quintal. Quando estavam prestes a dormir… Toc… Toc… Toc…

Três batidas ecoaram na janela do quarto. O rapaz levantou-se, afastou a cortina e olhou para fora. Não havia ninguém. Pensou que fosse uma brincadeira. Voltou para a cama. Na noite seguinte… Toc… Toc… Toc…

As mesmas três batidas. Mais uma vez, nada havia do lado de fora. Na terceira noite, o casal já não deu importância ao barulho. Apagaram as luzes e tentaram dormir. Foi um erro.

Na quarta noite, pouco antes da meia-noite… Toc… Toc… Toc… As batidas voltaram. Desta vez, porém, havia algo diferente. Nenhuma delas parecia humana. Eram mais fortes. Mais lentas. Mais pesadas.

O rapaz aproximou-se da janela com cautela. Quando afastou a cortina, seu corpo inteiro congelou. Do lado de fora estava uma criatura gigantesca. Tinha a aparência de um enorme lobo, mas caminhava sobre duas pernas. Seu pelo era escuro como carvão. As garras pareciam facas. Os olhos brilhavam em um vermelho intenso.

Entre os dentes havia um grande pedaço de carne ainda ensanguentado. A criatura sorriu lentamente. Depois falou com uma voz rouca e profunda:

— Estou cansado de bater nesta janela todos os anos… e nunca encontrar minha refeição.

Ela ergueu o pedaço de carne que carregava.

— Tragam-me carne fresca… e eu deixarei vocês em paz até o próximo São João.

O casal permaneceu imóvel, sem conseguir dizer uma única palavra. Então a criatura completou:

— É assim que fazemos nosso acordo há muitas gerações.

O rapaz finalmente conseguiu perguntar, com a voz trêmula:

— Q-quem é você?

O lobo abriu um sorriso ainda maior.

— Sou aquele que mata a fome dos que vivem na floresta… e castiga quem quebra antigos pactos.

Sem pensar duas vezes, o casal correu para a porta da casa. Entraram no carro às pressas e aceleraram pela estrada de terra. Atrás deles, ouviu-se um uivo tão alto que fez as janelas da casa tremerem. A criatura observou o veículo se afastar. Seu semblante demonstrava apenas tédio.

Então murmurou:

— Eu prefiro carne de animais…

Fez uma breve pausa. Seus olhos tornaram-se ainda mais vermelhos.

— Mas, quando ela me é negada… também não rejeito carne humana.

No instante seguinte, desapareceu entre as árvores. Segundos depois, uma enorme sombra surgiu correndo pela estrada atrás do carro. Os uivos ecoaram pela floresta. Depois… Silêncio.

Na manhã seguinte, os moradores encontraram o carro abandonado próximo à entrada da cidade. As portas estavam abertas. Os faróis permaneciam acesos. Mas o casal jamais foi encontrado.

Desde então, ninguém mais aceita passar a noite naquela casa durante as festas de São João. E os moradores continuam repetindo o mesmo aviso, transmitido de geração em geração: “Se ouvir três batidas na janela durante uma noite de lua cheia, não responda. Não olhe para fora. E, acima de tudo… nunca diga ‘não’ ao Lobo Faminto.”

Maria Lúcia Bezerra da Silva

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