Glinda era uma linda garota, filha de um velho rabugento, que era odiado por todos os moradores da pequena cidade onde viviam. Por causa da fama do pai, a menina cresceu isolada, tendo poucos amigos, embora mantivesse um coração bondoso.
Certo dia, ela e seu pai foram convidados para a festa de aniversário de Linda, uma jovem encantadora, gentil e admirada por toda a cidade. Linda era filha do prefeito e tratava Glinda com respeito, o que fazia com que ela a admirasse profundamente.
Naquela mesma festa, Glinda conheceu Augustinho, um rapaz simpático e educado. Foi amor à primeira vista. Pela primeira vez, ela acreditou que poderia ser feliz. Entretanto, seu sonho durou pouco.
Durante o momento dos parabéns, Augustinho aproximou-se de Linda diante de todos os convidados, ajoelhou-se e perguntou:
— Linda, você aceita namorar comigo?
A jovem sorriu e respondeu:
— Sim!
Os convidados comemoraram, enquanto Glinda permanecia imóvel. Naquele instante, algo pareceu se quebrar dentro dela. Ela não chorou. Não gritou. Não demonstrou qualquer emoção. Apenas olhou para os dois e pensou:
— “O que é esta dor que estou sentindo?”
Sem avisar ao pai, Glinda deixou a festa e desapareceu na escuridão da noite. Depois daquele dia, nunca mais foi vista. Alguns diziam que havia fugido da cidade. Outros acreditavam que ela havia morrido na floresta. Com o passar dos anos, seu nome transformou-se apenas em uma antiga lenda.
Dez anos depois, Augustinho e Linda estavam casados. Tinham dois filhos: Carlotta, de quatro anos, e Charlie, de dez. Viviam felizes em uma bela casa, enquanto a cidade prosperava.
Numa madrugada de tempestade, uma chuva intensa caiu sobre toda a região. Relâmpagos iluminavam o céu. O vento fazia as árvores balançarem violentamente. Quando o relógio marcou meia-noite, um fenômeno inexplicável aconteceu.
Todas as pessoas da cidade perderam parte de suas memórias enquanto dormiam. Ninguém acordou. Ninguém percebeu. Era como se uma força invisível percorresse cada casa, roubando lembranças.
Então, lentamente, a porta da casa de Augustinho se abriu sozinha. Uma figura alta, extremamente magra, envolta por um velho manto escuro, entrou silenciosamente. Seu rosto permanecia escondido pelas sombras. A única coisa visível eram dois enormes olhos vermelhos, que brilhavam na escuridão.
Sem produzir qualquer ruído, a criatura subiu as escadas. Abriu lentamente a porta do quarto. Augustinho e Linda dormiam profundamente. A estranha figura aproximou-se. Em vez de atacá-los, sentou-se no chão ao lado da cama. Permaneceu imóvel por horas. Seu olhar era vazio, mas carregava uma tristeza impossível de explicar.
Durante três longas horas, repetiu apenas uma frase, em um sussurro quase imperceptível:
— Ó… Augustinho…
— Ó… Augustinho…
— Ó… Augustinho…
Quando finalmente se levantou, aproximou-se da cama. Com extrema delicadeza, acariciou o rosto de Augustinho. Por um breve instante, seus olhos avermelhados pareceram se encher de lágrimas. Então murmurou:
— Se você tivesse olhado para mim uma única vez… talvez tudo tivesse sido diferente.
No mesmo instante, um poderoso raio atingiu o solo próximo à casa. O clarão iluminou todo o quarto. Quando a luz desapareceu, a criatura também havia desaparecido. Na manhã seguinte, todos os moradores perceberam que haviam esquecido parte de suas vidas. Alguns não reconheciam antigos amigos. Outros já não se lembravam de acontecimentos importantes. Entretanto, Augustinho havia perdido apenas uma lembrança.
Ele não se lembrava mais de Linda. Olhava para a esposa como se fosse uma completa desconhecida. Nenhum médico conseguiu explicar o que havia acontecido.
Muito distante dali, no alto de uma antiga torre abandonada, uma mulher observava a cidade através de uma enorme esfera de cristal. Dentro dela havia uma estranha fumaça cor-de-rosa, que girava lentamente. A mulher possuía a pele extremamente pálida, cabelos curtos e mal cortados e olhos avermelhados. Era Glinda. Ou, pelo menos, o que restara dela.
Seu corpo havia morrido muitos anos antes. Contudo, sua alma permanecia presa entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Consumida pela solidão e pelo amor que nunca pôde viver, transformara-se em uma poderosa feiticeira espiritual.
Com a esfera nas mãos, ela roubava lembranças para alimentar a magia que mantinha seu espírito preso à Terra. Mas uma pergunta jamais encontrou resposta. Quem era, de fato, a criatura que entrou na casa de Augustinho? Seria o fantasma de Glinda? Uma maldição criada por sua dor? Ou alguma entidade que assumira sua forma?
Ninguém jamais descobriu. Até hoje, nas noites de tempestade, moradores afirmam ouvir uma voz feminina sussurrando entre os trovões:
— Ó… Augustinho…
E dizem que, se alguém responder ao chamado, na manhã seguinte esquecerá para sempre a pessoa que mais ama.
Maria Lúcia Bezerra da Silva
