Durante uma grande tempestade, uma enchente devastou boa parte da cidade. Diversas casas foram destruídas, entre elas a de Gothel, uma jovem que trabalhava em uma antiga biblioteca.
Sem ter para onde ir, Gothel viu-se obrigada a comprar uma casa no outro lado da cidade, um bairro que sempre lhe causara estranheza. Diferente da região onde morava, aquele lugar era silencioso, sombrio e sem vida. As ruas pareciam sempre envoltas por uma névoa acinzentada, as casas eram antigas e quase ninguém era visto caminhando por ali.
Ela jamais imaginou que um dia viveria naquele lugar desconhecido. No caminho para sua nova casa, precisou atravessar um estreito túnel cercado por plantações. À medida que caminhava, sentiu um frio intenso percorrer seu corpo. Era como se alguém a observasse. Mesmo sem enxergar ninguém, continuou seguindo. Quando finalmente chegou ao destino, ficou completamente decepcionada. A casa estava velha, deteriorada, com paredes rachadas, janelas quebradas e o jardim tomado pelo mato.
Ela levou as mãos à cabeça e exclamou:
— Meu Deus! O que aconteceu com esta casa? Ela está muito pior do que eu imaginava! Não acredito que paguei tanto dinheiro por um lugar assim!
Nesse momento, um homem saiu da casa vizinha.
— Você é nova por aqui? — perguntou.
— Sou, sim. Meu nome é Gothel. E você é Jorge, não é? Ouvi algumas pessoas chamando seu nome quando cheguei.
O homem sorriu discretamente.
— Isso mesmo. Seja bem-vinda. Só quero lhe dar um conselho… Essa casa guarda muitos segredos.
Gothel arqueou as sobrancelhas.
— Como assim?
Jorge respondeu:
— Não é apenas esta casa. Existe também uma antiga biblioteca construída pelo mesmo proprietário. Muitos moradores acreditam que os dois lugares estão ligados por um mistério que ninguém conseguiu explicar.
Gothel soltou uma breve risada.
— Desculpe, mas não acredito nessas histórias. Acho que isso é só superstição.
Jorge apenas respondeu:
— Espero que você esteja certa.
Sem dar importância ao aviso, Gothel entrou na casa. Naquela tarde, os móveis chegaram. Enquanto ela tentava organizá-los, Jorge apareceu novamente e ofereceu ajuda. Depois de algumas horas de trabalho, tudo estava em seu devido lugar. Como forma de agradecimento, Gothel preparou um chá.
— Obrigada pela ajuda.
— Foi um prazer, respondeu Jorge.
Quando ele foi embora, Gothel permaneceu olhando pela janela. Algo não fazia sentido. Ela pensou:
— Estranho… Acabei de chegar e ele já conhece detalhes sobre esta casa e sobre a biblioteca. Será que ele sabe mais do que está dizendo?
Naquele instante… ela ouviu um sussurro.
— Gothel…
Ela se levantou imediatamente. Olhou para todos os lados. A casa estava completamente vazia. Assustada, murmurou:
— Quem está aí?
Ninguém respondeu. Logo depois, uma forte tempestade começou. O vento batia contra as janelas, fazendo toda a casa estremecer. Subitamente, um estrondo ecoou na sala. Um objeto caiu no chão. Gothel correu até o local. Era um antigo vaso de porcelana. Mas havia um detalhe inquietante.
Ela tinha certeza de que aquele vaso não existia quando entrou na casa.
Tentando convencer a si mesma de que tudo não passava de cansaço, decidiu dormir. Na manhã seguinte, foi trabalhar. Curiosamente, seu emprego ficava justamente na antiga biblioteca mencionada por Jorge. Enquanto organizava alguns livros recém-chegados, percebeu que várias estantes estavam vazias.
Ela perguntou à senhora Ana, funcionária mais antiga do lugar:
— Onde estão os livros antigos?
Ana suspirou.
— Você não soube? Durante a enchente, eles desapareceram. Não foram destruídos pela água… simplesmente sumiram.
Gothel arregalou os olhos.
— Como assim?
— Ninguém sabe explicar. Alguns dizem que alguém invadiu a biblioteca. Outros acreditam que foi o antigo dono quem os escondeu antes de morrer. Há quem diga que existe um segredo escondido entre aqueles livros desaparecidos.
Ana sorriu gentilmente.
— Ah… e você está muito bonita hoje.
Gothel sorriu discretamente. Mas sua curiosidade aumentava cada vez mais. Naquela noite, enquanto pesquisava antigos registros sobre a biblioteca, alguém bateu à porta.
Toc… Toc…
Era Jorge.
— Boa noite. Ainda está acordada?
— Sim. Aconteceu alguma coisa?
— Na verdade, queria convidá-la para o meu aniversário amanhã. Será às cinco e meia da tarde. Gostaria muito que você fosse.
— Claro. Estarei lá por volta das seis horas. Assim também posso ajudá-lo nos preparativos.
— Combinado. Até amanhã.
— Até.
Depois que Jorge foi embora, Gothel ficou ainda mais intrigada. Ele parecia conhecê-la há muito tempo. Seu jeito lembrava muito o de seu pai. Mas isso parecia impossível.
No dia seguinte, antes mesmo da festa, Gothel decidiu procurá-lo. Foi até sua casa. Bateu na porta.
— Jorge! Você está aí?
Uma vizinha respondeu:
— Ele saiu cedo. Foi para a biblioteca.
Sem perder tempo, Gothel foi até lá. Encontrou Jorge escrevendo algo em uma mesa afastada. Ela aproximou-se e falou seriamente:
— Precisamos conversar. Desde que cheguei aqui, sinto que você está escondendo alguma coisa de mim. Você se parece muito com meu pai. Isso não pode ser coincidência. Será que eu tive algum irmão? Eu praticamente não lembro da minha infância. Depois que meus pais me deixaram aos cuidados da minha avó, nunca mais os vi.
Jorge permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Depois respondeu:
— Talvez você esteja apenas confundindo as coisas…
Gothel interrompeu:
— Não. Meu coração diz que existe alguma ligação entre nós. E eu vou descobrir a verdade.
Ela saiu da biblioteca decidida a investigá-lo. Naquela mesma tarde, voltou escondida. Atrás de uma estante, ouviu Jorge conversando sozinho.
— Eu queria contar tudo para ela… Mas prometi ao nosso pai que manteria esse segredo. Ele dizia que Gothel precisava crescer forte, sem depender de ninguém. Porém… esconder isso está ficando cada vez mais difícil.
Nesse instante, Gothel saiu de trás da estante.
— Então eu estava certa…
Jorge levou um enorme susto.
— Você estava ouvindo?
— Sim. Agora quero saber toda a verdade.
Jorge respirou profundamente.
— Você merece saber.
Ele abaixou a cabeça.
— Nós somos irmãos. Depois da morte da nossa mãe, nosso pai decidiu separar nossas vidas para nos proteger. Havia pessoas interessadas na herança do antigo dono da biblioteca, que também era nosso avô. Ele acreditava que, mantendo você longe de mim e desse mistério, estaria protegendo sua vida.
Gothel permaneceu em silêncio. Finalmente, várias lembranças começaram a voltar à sua mente. O sussurro A casa. A biblioteca. Os livros desaparecidos. Tudo estava ligado à sua família.
Jorge continuou:
— Os livros roubados escondem um mapa que leva ao antigo cofre do nosso avô. Foi por isso que tantas pessoas desapareceram tentando encontrá-los. Eu só queria impedir que você fosse envolvida nisso.
Gothel sorriu emocionada.
— Você tentou me proteger o tempo todo…
Jorge assentiu.
Os dois se abraçaram. Naquele instante, o mesmo sussurro voltou a ecoar pela biblioteca.
— Ainda falta encontrar o último livro…
Os dois se olharam assustados. Perceberam que o verdadeiro mistério ainda estava longe de terminar. E compreenderam que aquela voz talvez fosse apenas o início de uma aventura muito maior.
Maria Isabela de França Lima
