Desde pequena, eu passava por aquela casa quase todos os dias. Ela ficava na esquina da rua, com o portão sempre fechado e as janelas cobertas por poeira. Ninguém nunca via alguém entrando ou saindo dali. Mesmo assim, a casa continuava de pé, como se estivesse esperando alguma coisa — ou alguém.
Na escola, todo mundo comentava sobre ela. Alguns diziam que estava abandonada; outros juravam que alguém morava lá, mas só saía à noite. Eu nunca levei essas histórias muito a sério, até o dia em que meus amigos decidiram entrar na casa.
Era fim de tarde quando fomos até lá. O céu estava escurecendo, e o vento fazia barulho nas árvores. A casa parecia maior de perto, mais silenciosa, como se nos observasse. O portão não estava trancado, o que já foi estranho. Entramos rindo, tentando fingir coragem, mas, por dentro, eu estava cada vez mais nervosa.
O lugar cheirava a mofo, e o chão rangia a cada passo. Meus amigos iam na frente, falando alto, enquanto eu ficava mais atrás, observando tudo com atenção. Foi então que percebi algo diferente: uma das janelas do andar de cima estava limpa, ao contrário das outras, cobertas por poeira e teias de aranha.
Não falei nada no começo. Achei que podia ser só impressão minha. Mas, quando subi alguns degraus da escada, ouvi um barulho — como se alguém tivesse se movido rápido demais. Meus amigos não ouviram. Continuaram rindo e mexendo nos móveis velhos, abrindo gavetas e chutando caixas vazias.
Meu coração começou a bater forte. Olhei novamente para a janela e tive certeza de que alguém estava ali. Não era um vulto nem uma sombra: era uma pessoa observando, imóvel, silenciosa, como se já estivesse à nossa espera. Dei um passo para trás sem pensar.
Senti um arrepio subir pela nuca.
Foi quando gritei para irmos embora. Eles reclamaram, disseram que eu estava exagerando, mas algo no meu rosto deve ter mostrado que não era brincadeira. Minha voz tremia, e minhas mãos também. Saímos correndo da casa, sem olhar para trás, tropeçando nos próprios passos.
Quando chegamos à rua, respirei aliviada. Meus amigos ainda riam, dizendo que não havia nada lá dentro, que tudo não passava de imaginação. Mas, antes de ir embora, olhei para a casa mais uma vez.
A janela de cima agora estava aberta.
E, por um breve instante, tive a sensação de que alguém ainda nos observava dali, em silêncio.
Nunca mais passamos por aquela esquina do mesmo jeito. E eu aprendi que, às vezes, perceber demais também é um tipo de medo — porque há lugares que não gostam de ser vistos… mas gostam de observar.
Bianca Agnes Alves Matos
