Há muito tempo, uma escola foi consumida por um incêndio e permaneceu abandonada desde então. As paredes enegrecidas, as janelas quebradas e o telhado parcialmente destruído transformaram o antigo prédio em um monumento ao silêncio.
Os moradores evitavam passar por aquela rua depois das 18 horas. Diziam que quem insistia em atravessá-la voltava com a respiração ofegante, a pele gelada e a estranha sensação de ter sido seguido por alguém que jamais conseguia enxergar.
Mas ninguém sabia explicar o motivo.
Na quinta-feira passada, exatamente às 2h17 da madrugada, o velho sino da escola tocou.
O som atravessou a neblina e ecoou por toda a vila.
Marcos, vigia da fábrica localizada ao lado do prédio abandonado, interrompeu sua ronda. Ele conhecia aquele lugar havia anos e tinha absoluta certeza de que não existia energia elétrica na escola desde o incêndio.
Mesmo assim, viu algo impossível.
Uma luz amarelada começou a acender sala por sala, como se alguém percorresse lentamente os corredores. As lâmpadas piscavam por alguns segundos antes de se estabilizarem, lançando uma iluminação fraca e trêmula através das janelas cobertas de poeira.
Às 2h20, a pesada porta principal rangeu lentamente e abriu-se sozinha.
Sem coragem de se aproximar, Marcos telefonou para a polícia, acreditando tratar-se de uma invasão.
A viatura chegou às 2h35.
Quando os policiais desembarcaram, tudo havia voltado ao mais absoluto silêncio.
Não havia luz.
Não havia movimento.
Nem sequer o sino continuava tocando.
O guarda-sargento entrou no prédio empunhando uma lanterna. O feixe de luz revelava apenas poeira acumulada, teias de aranha balançando lentamente e carteiras escolares quebradas pelo tempo.
Parecia que nada havia acontecido.
Até que ele apontou a lanterna para o chão.
Havia pegadas pequenas, completamente molhadas.
Entravam pela porta principal e desapareciam na escada que levava ao segundo andar.
Todas tinham exatamente o mesmo tamanho.
Todas pertenciam a crianças.
E todas estavam descalças.
O guarda-sargento trocou um olhar silencioso com Marcos.
Sem dizer uma palavra, os dois subiram.
No segundo andar, encontraram a Sala 7.
A porta estava entreaberta.
Ao empurrá-la, o ranger da madeira ecoou pelo corredor vazio.
O que viram fez o sangue gelar.
Ao contrário das demais salas, cobertas por poeira e abandono, aquela parecia ter sido organizada havia poucos minutos.
As carteiras estavam perfeitamente alinhadas.
Os cadernos repousavam sobre algumas mesas.
Até o apagador encontrava-se ao lado do quadro-negro.
Escrito em giz branco, com uma caligrafia infantil extremamente caprichada, havia apenas uma frase:
Aula de HistóriaTema: O que aconteceu em 12 de agosto de 1989?
O guarda-sargento franziu a testa.
Não reconhecia aquela data.
Marcos, porém, empalideceu imediatamente.
— Foi nesse dia que a escola pegou fogo… — murmurou.
Sua voz saiu quase sem força.
Naquela manhã de 12 de agosto de 1989, um incêndio consumira o prédio em poucos minutos.
Quatorze crianças e duas professoras morreram presas entre as salas de aula.
A investigação concluiu, de forma apressada, que tudo fora provocado por uma falha elétrica.
O caso foi encerrado poucos dias depois.
Jamais houve uma perícia aprofundada.
Jamais alguém respondeu pelas mortes.
Às 2h45, o sino voltou a tocar.
Desta vez, três badaladas.
Lentas.
Pesadas.
Profundas.
No mesmo instante, ouviram o ranger da porta principal abrindo-se novamente.
Os dois correram até uma das janelas do corredor.
Lá embaixo, na calçada, havia uma fila.
Eram pequenas figuras imóveis.
Vestiam antigos uniformes escolares cinzentos, encharcados como se tivessem acabado de sair debaixo de uma tempestade.
Carregavam mochilas nas costas.
Nenhuma possuía rosto.
Onde deveriam existir olhos, nariz e boca, havia apenas um vazio negro, profundo e impossível de encarar por muito tempo.
Então, uma das figuras levantou lentamente a mão.
Uma voz infantil rompeu o silêncio:
— Professor… posso entrar? A aula vai começar.
Naquele exato instante, o relógio da igreja marcou 3 horas da madrugada.
Todas as luzes da escola apagaram-se simultaneamente.
O corredor mergulhou numa escuridão absoluta.
Marcos gritou pelo guarda-sargento.
Não houve resposta.
Apenas o som de pequenas carteiras sendo arrastadas pelo piso de madeira.
Depois…
Silêncio.
Na manhã seguinte, a escola parecia exatamente como sempre.
Abandonada.
Coberta por poeira.
Sem qualquer sinal de que alguém houvesse estado ali durante a noite.
Entretanto, quando os policiais retornaram para uma nova inspeção, encontraram algo que não constava no relatório anterior.
No quadro-negro da Sala 7, estavam escritos dezesseis nomes, todos em perfeita ordem alfabética.
Os quinze primeiros pertenciam às vítimas do incêndio ocorrido em 12 de agosto de 1989.
O décimo sexto nome havia surgido durante a madrugada.
Marcos Ferreira — Vigia.
Marcos jamais voltou para casa.
Seu corpo nunca foi encontrado.
Desde então, os moradores da vila evitam passar pela rua dos fundos da antiga escola.
E dizem que, exatamente às 2h17 da madrugada, ainda é possível ouvir o sino tocar.
Logo depois, surgem risadas de crianças ecoando pelos corredores vazios.
Às vezes, também se escuta o som de carteiras sendo arrastadas, páginas de cadernos sendo folheadas e uma voz infantil perguntando, com uma estranha mistura de inocência e tristeza:
— Professor… a aula já vai começar?
Carlos Henrique da Silva Nascimento
