18 de Setembro

O ano era de mil novecentos e noventa e seis.

— Tem certeza de que deseja comprar este imóvel? Todos os que moraram aqui relataram batidas na janela do quarto durante a madrugada.

Foi o que disse o antigo proprietário daquela casa. Mesmo assim, não me importei. Comprei-a e fui morar sozinha ali. Era realmente tudo o que eu sonhava: uma casa longe da cidade, com uma terra fértil e espaço suficiente para criar muito gado. Para mim, aquela era a definição de um lugar perfeito.

Durante um tempo, tudo correu bem. De manhã, eu tomava café preto, comia pão e ia trabalhar. Roçava o mato, alimentava os animais e mantinha a mente ocupada. À tarde, armava uma rede sob a sombra de um pé de tamarindo e descansava tranquilamente. Quando anoitecia, dormia cedo para, no dia seguinte, recomeçar a rotina.

Porém, no dia dez de novembro de mil novecentos e noventa e nove, uma quarta-feira, exatamente três anos após a compra do imóvel, tudo mudou.

Naquela noite, o vento não soprou uma única vez. Até os grilos haviam se calado. O relógio de ponteiro pendurado na parede marcava o início da madrugada quando fui despertada por uma forte batida na janela. Quem atravessaria quilômetros entre a cidade e aquele sítio isolado apenas para incomodar uma camponesa durante a madrugada?

Abri a janela, imaginando que pudesse ser algum animal faminto. Para minha surpresa, não havia ninguém. Olhei para todos os lados. A escuridão parecia infinita. Nenhum movimento. Nenhum som. Tudo o que pude fazer foi estranhar. Quem teria provocado aquela batida? Durante muito tempo, aquilo continuou acontecendo. Todas as quartas-feiras, exatamente à meia-noite, eu era acordada pelas mesmas três batidas na janela.

Tum… Tum… Tum…

Com o passar dos meses, acabei me acostumando. As batidas já não me assustavam, tampouco despertavam minha curiosidade. Eu sequer me levantava para abrir a janela. Mas, numa terça-feira, tudo pareceu diferente. Meu gado estava inquieto. As galinhas recusaram a comida durante todo o dia. O capim começou a secar de maneira inexplicável, mesmo estando em pleno período chuvoso. Pela primeira vez, senti que algo realmente terrível estava prestes a acontecer.

Naquela noite, quase não consegui dormir. O monótono tic-tac do relógio parecia mais alto do que nunca, como se contasse os segundos para algum acontecimento inevitável. À meia-noite do dia dezoito de setembro de dois mil e dois, despertei. Mas, dessa vez, não houve batidas na janela. Do lado de fora, ouvi apenas uma voz feminina. Uma voz baixa. Fraca. Carregada de um sofrimento impossível de descrever.

Era o choro desesperado de uma mãe chamando pela filha. Abri lentamente a janela. E, pela primeira vez, havia alguém ali. Era uma mulher extremamente magra. Sua pele era tão pálida quanto a cera de uma vela. Os cabelos lisos, longos e embaraçados escondiam parte do rosto. Seus olhos fundos carregavam uma tristeza tão profunda que despertavam em mim um sentimento involuntário de piedade.

Meu corpo recuou instintivamente quando ela ergueu um braço na minha direção. As enormes unhas estavam cobertas de barro. Com a outra mão, ela arranhava o próprio couro cabeludo até fazê-lo sangrar.

— Você viu minha filha? Minha doce menina… você a viu?

Ela então apontou lentamente para a escuridão sob minha cama.

— Ela está ali… tenho certeza. Veja se minha bebê não está brincando de esconder. Por favor… eu imploro…

Naquele instante, uma rajada de vento atravessou o quarto pela primeira vez naquela noite. Junto dela veio uma voz infantil. Um sussurro tão fraco que parecia nascer dentro da minha própria cabeça.

— Não… não faça isso. Não olhe para debaixo da cama. Fuja enquanto ainda há tempo.

— Por quê? — perguntei, incapaz de desviar os olhos daquela mulher.

A criança continuou:

— Já faz muito tempo… Este lugar era muito maior. Tudo isso pertencia à minha mãe e a mim. Um dia saí para alimentar as galinhas… e me perdi. Não lembro quanto tempo fiquei desaparecida. Mas nunca esqueci o dia em que voltei. Escrevi a data debaixo da cama com um pedaço de carvão.

Minha respiração falhou.

A mulher voltou a implorar.

— Por favor… veja se ela está ali…

Então a voz infantil concluiu:

— Foi no dia dezoito de setembro de mil oitocentos e noventa e cinco… também era uma quarta-feira.

Naquele instante, todas as peças começaram a se encaixar. As quartas-feiras. As batidas. A data. A mãe. A filha. Tudo fazia sentido. Meu maior erro foi desviar os olhos daquela figura para procurar a origem da voz da criança.

Na mesma semana, abandonei aquela casa para sempre. Mudei-me para um apartamento no décimo andar de um prédio na cidade. Durante muitos anos, nunca mais falei sobre o que havia acontecido. Convenci a mim mesma de que tudo não passara de um pesadelo. Até que…

Numa madrugada de dezembro de dois mil e quinze, fui despertada novamente.

Tum… Tum… Tum…

As três batidas.

Dessa vez, na janela de vidro do apartamento. Levantei lentamente. Afastei a cortina. Lá fora, como eu já esperava… Não havia ninguém. Então, bem ao lado do meu ouvido, ouvi novamente a voz daquela criança.

Desta vez, porém, ela parecia sorrir.

— Eu avisei para você não olhar debaixo da cama. Agora… ela sabe onde você mora.

Na manhã seguinte, encontrei marcas de pequenas mãos de barro no vidro da janela, do lado de fora do décimo andar. Até hoje, nunca descobri como alguém poderia ter chegado até ali.

Maria Luyza Silveira Silva

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