Dizem que o sol de 1914 queimava diferente no Cariri. Parecia mais perto da terra, como se quisesse tocar o chão rachado. Meu avô sempre contava que, naquele ano, até o vento tinha medo de aparecer, porque qualquer sopro levantava poeira suficiente para esconder a estrada inteira.
Na pequena vila de São Mateus morava Neco, um menino de doze anos que já ajudava o pai na roça desde cedo. Todo dia ele acordava antes do sol, mas, naquela época, o esforço parecia inútil. A enxada batia na terra dura e só fazia um som seco, que lembrava o estalo de madeira velha.
O açude tinha virado apenas um buraco grande, com um resto de lama no fundo, onde alguns animais insistiam em procurar água. Neco via os bois magros — quase só pele e osso — lutando para ficar de pé. A mãe dele passava as tardes tentando economizar gotas d’água, como se cada uma valesse ouro.
Apesar de tudo, Neco não desistia de procurar esperança. Um dia, enquanto caminhava até a serra, encontrou Dona Umbelina, a rezadeira da vila, que carregava um jarro vazio.
— Vai buscar água onde, Dona Umbelina? — Ele perguntou.
Ela sorriu daquele jeito que só quem já viveu muita coisa sabia sorrir.
— Vou buscar fé, meu filho — respondeu. — Porque a água uma hora chega.
Neco não entendeu muito bem, mas guardou aquelas palavras no peito. E foi assim que, dias depois, quando as nuvens finalmente se juntaram no céu, ele correu para avisar a mãe.
A primeira gota caiu devagar e fez até barulho quando tocou o chão seco. Depois veio outra, e mais outra, até que a chuva despencou com força, espalhando cheiro de terra molhada por todo o Cariri.
As pessoas saíram de casa — umas chorando, outras rindo e algumas até dançando. Neco ficou no meio do terreiro, deixando a chuva bater em seu rosto. Naquele momento, ele entendeu o que Dona Umbelina queria dizer: às vezes, a fé chega antes da água.
E assim o Cariri renasceu depois da grande seca de 1914. Meu avô dizia que, naquele ano, a chuva não trouxe só água: trouxe de volta a esperança que o sol quase tinha levado.
Grazielle Gomes da Silva