A Voz da Terra Sedenta

A seca de 1914 bateu forte no Cariri. O solo ficava todo rachado, os animais desapareciam e a poeira tomava conta de tudo. Zeca era um garoto de dez anos, bem curioso. Ele saía todo dia junto com o avô Anselmo em busca de água. O povoado inteiro passava por um sofrimento grande. A imagem do sertão cheio de verde parecia algo bem distante agora.

Anselmo sempre dizia que, para sobreviver na vida do sertão, era essencial entender a terra. Por isso, ele levava Zeca até uma cacimba velha. Aquela cacimba já tinha salvado muita gente no passado, mas, ao chegarem lá, eles só encontravam um buraco completamente seco. As paredes eram de barro endurecido. Ainda assim, Anselmo observava cada detalhe com atenção. Parecia acreditar que ainda era possível encontrar água naquele lugar.

Enquanto andavam pelo caminho, o avô contava relatos de outras secas antigas. Ele descrevia pessoas que viajavam longas distâncias só para conseguir comida, falava de famílias que repartiam o pouco que restava e destacava a resistência que o povo sempre mostrava. Zeca escutava cada palavra com muita atenção. Ele se perguntava como o avô conseguia suportar tantas dificuldades ao longo da vida.

Certa vez, na cacimba, Zeca notou uma pegada pequena de bode na poeira fina. O avô deu um sorriso e explicou que, se um animal tinha passado por ali, significava que havia encontrado água nas redondezas. Os dois ficaram animados com isso. Seguiram as pegadas até um espaço entre algumas pedras. Lá brotava um filete de água bem fraco. Não era muito, mas já representava uma esperança.

Zeca pegou a cuia e a encheu com cuidado. Anselmo observava a cena todo emocionado. Para o menino, aquilo era uma verdadeira descoberta. Para o avô, era a confirmação de que o sertão sempre encontra um jeito de continuar adiante. No retorno para casa, Anselmo colocou a mão no ombro do neto e disse, com voz firme: “No Cariri, quem desiste acaba sem água pra beber. Mas quem persiste sempre descobre um jeito de recomeçar.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Francisco Gabriel de Lima Silva

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