O Menino Sem Nome

13 de fevereiro, número 369 da Rua Almirante, São Paulo. Esse era o endereço do orfanato mais pobre da região. Sua estrutura estava em condições precárias. Apesar disso, acolhia mais de mil crianças e jovens, embora o prédio suportasse, no máximo, trezentos e cinquenta.

O edifício era composto por dois andares, oitenta quartos (corrigido de duzentos e oitenta, que não condiz com a lotação), sete banheiros, uma lavanderia e uma cozinha. A estrutura claramente não era suficiente para abrigar todas aquelas crianças. Contudo, aquele ainda era o único lar de muitos pequenos que haviam sido rejeitados pela sociedade.

Entre eles, estava um menino conhecido como “O Sem Nome”. Ele tinha um nome, mas não um sobrenome. Harry era o mais jovem do orfanato e o único que se dedicava aos estudos. Também era o único que não tinha amigos. Seus únicos companheiros eram dois livros deixados com ele: Extraordinário e O Menino do Pijama Listrado.

Esses livros não o julgavam. Eles o compreendiam. Para Harry, eram como irmãos silenciosos e fiéis.

Ele era pequeno para seus sete anos, tinha pele parda, olhos verdes e cabelo castanho.

Harry se destacava entre os demais não apenas por estudar, mas por escrever. Sonhava em ser escritor, embora sua realidade não colaborasse. Tinha apenas um caderno para registrar suas histórias, e precisava escondê-lo — caso contrário, os outros meninos o roubariam.

13 de fevereiro de 2000

Era o dia mais esperado do ano: alguém viria ao orfanato para adotar uma criança. Tudo o que se sabia era que era um casal que já tinha dois filhos.

— Por aqui, senhores Culler, — disse a diretora, caminhando à frente.

Ela conduzia um casal elegante: o homem, alto, branco, vestido com terno; a mulher, também alta, morena, usando roupas de alta classe.

— Esses são os… — começou a diretora, mas foi interrompida.

O casal havia notado um garoto com o rosto machucado. Era Harry. Ele havia levado alguns socos mais cedo naquele dia. O casal caminhou até ele e se ajoelhou.

— Olá, meu nome é Alessandro e esta é minha esposa, Sofia. O que aconteceu com o seu rosto? — Perguntou, com gentileza.

Eles conversaram por alguns minutos e, comovidos com a história e a sensibilidade do garoto, iniciaram o processo de adoção ali mesmo.

Quatro meses depois, Harry já vivia em seu novo lar: uma bela mansão com piscina, parquinho, biblioteca e muito mais. Pela primeira vez, ele se sentia verdadeiramente feliz. Afinal, agora fazia parte de uma família extraordinária.

Esse foi o começo da autobiografia de Harry Culler, o menino que um dia foi chamado de “O Sem Nome”, e que agora realizava o sonho de ser escritor. Já havia lançado uma coleção de livros que se tornaram best-sellers.

Desde que deixou o orfanato, seus pais adotivos passaram a enviar doações mensais para ajudar a instituição. E até hoje, em 2025, Harry continua ajudando o instituto que foi o seu lar durante sete anos.


Geísa Silva Mascarenhas
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