Depois da Poeira, a Água

O sol já se mostrava pesado quando o menino João abriu a porta. A terra do Cariri, outrora tão viva e vermelha, desfazera-se, virando um pó fino entre os dedos, — que tristeza. Era 1914, o ano em que a chuva, de repente, desapareceu. Os mais velhos comentavam que aquela estiagem era severa, uma das piores, e, conforme os registros antigos, as águas tinham diminuído mais de 70% na região, meu Deus.

Joãozinho, com seus doze anos, já sentia o silêncio melancólico que pairava no ar. O açude perto do povoado se secou depressa, como se a água tivesse sumido da noite para o dia. As pedras do fundo agora serviam de caminho para quem tentasse atravessar, buscando uma esperança que parecia inútil.

Dona Maria, sua mãe, não perdia a fé. Todas as tardes, colocava uma cuia com água na porta de casa, “pra ver se Deus ajudava”, dizia ela. Mas a cuia só juntava poeira, coitadinha.

Um dia, caminhando pela estrada rachada, Joãozinho encontrou um carneiro caído no chão, fraco demais para se erguer. O garoto imaginou que ajudar era impossível, mas sentou-se perto dele por alguns instantes. Ficaram ali, os dois, olhando para o céu, à espera de uma nuvem que teimava em não aparecer.

O povoado se esvaziava aos poucos. Famílias inteiras iam para o Maranhão, para o Piauí, ou para qualquer canto onde ainda se ouvisse o som da água correndo. O pai de Joãozinho pensou em partir, mas preferiu ficar “só mais um pouco”; deixar a terra onde nasceu era difícil demais.

Em uma manhã de muito vento, Joãozinho ouviu um barulho familiar: o trovão. O céu escureceu lentamente, como quem acorda de um sono profundo. As primeiras gotas, raras e tímidas, fizeram a poeira subir como fumaça. Joãozinho sorriu. Sua mãe chorou.

A chuva daquele dia não resolveu tudo, mas trouxe de volta algo que a seca vinha levando mês após mês: a esperança. E, naquela noite, depois de muito tempo, o Cariri adormeceu embalado pelo som suave da água no telhado, como se a terra respirasse outra vez.

Danilo Lima da Silva

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