Mia era uma adolescente de classe alta, pertencente a uma família com muito poder nas mãos. Sua família era composta por quatro pessoas: seu pai, Noah — um homem gentil e simpático, que nunca deixou o poder subir à cabeça —; seu irmão gêmeo, Luan, muito parecido com o pai, tanto na aparência quanto no comportamento; e sua mãe, Michele, uma mulher arrogante que, ao contrário do marido, deixara o poder dominar sua personalidade. Michele era de uma beleza admirável e trabalhava como modelo.
Mia, por sua vez, era completamente diferente do irmão, mas muito parecida com a mãe — embora, de certa forma, ainda pior. Na escola, era conhecida como “a nojinho”, pois ninguém a suportava. Ela sempre tentava passar por cima dos outros, independentemente da ocasião.
Noah nunca perdeu a paciência com ela, a não ser uma única vez. Esse momento aconteceu quando Mia humilhou um bolsista na escola. Noah ficou tão furioso que a retirou da instituição e a enviou para um internato. Lá, Mia foi expulsa em apenas uma semana. Ele a mandou então para outro internato, e o mesmo se repetiu. Noah já não sabia mais o que fazer com a filha — estava exausto.
Todos os finais de semana, a família ia para um clube. Passavam o dia lá e só voltavam à noite. Em uma dessas visitas, Mia voltou a humilhar um funcionário. Não era a primeira vez, mas, dessa vez, foi diferente. Quando Noah foi repreender a filha, sentiu uma dor muito forte no lado esquerdo do peito e começou a vomitar sangue. Era um ataque cardíaco.
Os três — Michele, Luan e Mia — estavam na sala de espera quando o médico apareceu. Mia entrou em choque: o médico era o pai da menina que ela havia humilhado. Ele olhou para Mia, mas logo desviou o olhar e se dirigiu à mãe dela, informando que Noah havia passado por uma cirurgia e iria sobreviver.
Mia ficou profundamente arrependida de ter humilhado a filha do médico. Se não fosse por ele, seu pai teria morrido. Sentiu-se completamente envergonhada.
Ela tentou se tornar uma pessoa melhor, mas não conseguiu. Dois meses após a cirurgia do pai, Mia humilhou uma garota que chorava na escola — sem sequer saber o motivo do choro. Recebeu uma suspensão de cinco dias. Noah ficou furioso e, por pouco, não a agrediu fisicamente. Michele o impediu.
Mia ficou com muita raiva do pai e passou duas semanas sem sequer olhar para ele. Durante essas semanas, todos os dias, exatamente ao meio-dia, corria para o banheiro da escola para chorar, sentindo raiva de si mesma por ter decepcionado quem mais amava.
Era para ser apenas mais um dia comum. Mas não foi. Quando o relógio marcou meio-dia, ela se levantou para ir ao banheiro, como fazia sempre. No entanto, foi impedida pelo toque do celular. Hesitou bastante, mas atendeu — e se arrependeu no mesmo instante. Seu pai e seu irmão haviam morrido em um acidente de carro.
Mia começou a chorar desesperadamente. A única pessoa que a abraçou naquele momento foi justamente a menina que ela havia humilhado semanas antes. As colegas, que diziam ser suas amigas, começaram a rir e saíram da sala. Naquele instante, Mia percebeu que nunca mais poderia ser arrogante — e cumpriu essa promessa.
Hoje, ela tem 27 anos. Tornou-se médica e é considerada uma das pessoas mais simpáticas do país. No jazigo de seu pai e de seu irmão, fez um juramento: seria igual a eles e nunca mais humilharia ninguém. E está cumprindo esse juramento.
Géisa Silva Mascarenhas.
