Neotória era uma cidade grande, com muitos prédios e casas enormes — maiores até que mansões. Era um lugar de muitas ruas e pouquíssima vegetação, pois ficava no meio de outras metrópoles. Na cidade, viviam pessoas muito importantes — financeiramente falando. Mas havia alguém que se destacava entre todos: Horácio Valverde, um senhor de 96 anos, que já não conseguia mais andar e falava pouco.
Horácio tinha um filho chamado Victor, um jovem de 22 anos. Seu pai era um homem bondoso, que sempre ajudava os outros, embora fosse bastante rigoroso. Já Victor era o oposto: esnobe, egoísta, e se importava apenas com uma pessoa — ele mesmo.
Um dia, Horácio chamou o filho para visitá-lo em sua luxuosa mansão. Ao chegar, Victor encontrou o pai deitado na cama, com enfermeiros ao lado. Horácio pediu que todos saíssem, ficando a sós com o filho. Com dificuldade para falar e uma voz fraca, disse:
— Venha cá, meu filho. Chegue mais perto.
Victor se aproximou e sentou-se numa poltrona ao lado da cama.
— Já estou nos últimos minutos da minha vida, meu filho. Não há mais nada que eu possa fazer. Agora é com você. Cuide-se, porque, daqui pra frente, estará sozinho. Sua mãe já se foi há alguns anos… e quanto ao resto da família… bem, eles nunca se importaram conosco.
Victor, com uma expressão de leve tristeza, perguntou:
— Mas não há nada que possamos fazer?
— Não, filho. Todos temos nossa hora, e agora é a minha. Antes de partir, quero que saiba que toda a minha herança é sua. Faça o que quiser com ela, viva sua vida, mas… por favor, ajude quem precisar.
— Tá bom, papai — respondeu Victor, sem muito entusiasmo.
— Agora vá, e me deixe só em meus últimos segundos.
Antes que Victor saísse, Horácio chamou mais uma vez:
Espera! Tem mais uma coisa… Uma vez, quando ajudei um homem em situação de
rua, ele me agradeceu e me fez uma pergunta que nunca esqueci:
poder em suas mãos, construiria pontes ou mundos?”
Desde aquele dia, pensei nisso todos os dias. Nunca consegui encontrar uma resposta. Agora, quero que você tente. Não precisa dizer a ninguém. Apenas a si mesmo.
— Tá bom, papai. Mais alguma coisa?
— Não. Pode ir. Adeus.
Alguns dias depois, Horácio faleceu, deixando ao filho não só sua herança, mas também a valiosa pergunta, que carregava um grande ensinamento de vida.
Onze anos se passaram. Victor agora tinha 33 anos. Ainda não havia ajudado ninguém. Sua vida girava em torno de compras milionárias, viagens luxuosas e presentes caríssimos para amigos que já tinham mais do que precisavam. Jamais pensava em quem realmente necessitava — nem mesmo na família distante.
Certo dia, ao sair de uma loja e caminhar em direção ao seu carro importado, Victor se deparou com um menino de cerca de seis anos, admirando o veículo. Incomodado, gritou:
— Saia daí, moleque! Está sujando meu carro… riscando, não é? Vou chamar a polícia!
Uma senhora que estava sentada na calçada, encostada na parede, correu, pegou o menino no colo e respondeu:
— Calma, senhor! Ele não fez nada. Se tiver sujado, eu limpo. Ele só ficou encantado com a beleza do seu carro.
— Não precisa limpar nada. Apenas sumam daqui! — respondeu Victor, grosseiramente.
A senhora e o menino se afastaram, cabisbaixos e tristes. Victor entrou no carro e foi embora.
Dias depois, Victor recebeu o convite de um amigo para uma festa. Aceitou de imediato. No dia do evento, passou a noite inteira na casa do anfitrião, saindo apenas às 00h30. Despediu-se dos amigos e saiu andando pela rua, distraído com o celular, enquanto atravessava para o outro lado em direção ao carro.
Foi então que ouviu uma buzina de caminhão. Quando olhou, já era tarde.
Dois dias depois, Victor acordou em uma cama de hospital, com a cabeça zonza e uma sensação estranha no corpo. Gritou:
— Socorro!
Uma enfermeira entrou rapidamente no quarto e disse:
— Oi, bom dia! O senhor acordou. O que está sentindo?
— Na verdade, o que eu não estou sentindo. Não sinto minhas pernas! O que aconteceu?
— O senhor foi atropelado por um caminhão há dois dias. Um senhor que passava por perto correu, arrastou o senhor para fora da rua e ligou imediatamente para os paramédicos. Ele salvou sua vida — explicou a enfermeira.
Após dias de internação e tratamento, Victor recebeu alta. Ao sair do hospital em uma cadeira de rodas, a enfermeira o chamou:
— Senhor Victor! O homem que o salvou deixou este bilhete e pediu que fosse entregue ao senhor.
Victor nada disse. Pegou o papel, entrou no carro e foi embora.
Alguns dias depois, olhando pela janela de casa, viu o bilhete sobre uma mesa e resolveu abri-lo. Nele estava escrito:
“Olá. Sou o senhor que salvou sua vida no dia do acidente. Seu pai me conheceu, e foi ele quem me ajudou muitos anos atrás. Em agradecimento, fiz a ele uma pergunta que talvez tenha lhe contado antes de falecer. Espero que você melhore — tanto do atropelamento quanto da mentalidade. Ajude quem precisa. Honre seu pai e sua mãe, que foram pessoas boas e generosas. Não desperdice a vida como tem feito.”
Victor fechou os olhos, e lágrimas escorreram pelo rosto. Lembrou-se de como seus pais haviam sido bons… e de como ele mesmo se tornara o oposto.
Dias depois, decidiu mudar.
Reuniu empresários e dirigentes de ONGs, fundou suas próprias organizações e passou a oferecer moradia, alimentação e apoio psicológico a quem precisava. Fez tudo com dedicação — e pessoalmente procurou a senhora e o menino a quem havia sido tão grosseiro, pedindo perdão.
Cinquenta e seis anos se passaram.
Victor, agora idoso, vivia sob cuidados médicos e tratamentos constantes. Um dia, acordou com um desejo súbito: pediu que o levassem ao cemitério.
Lá, foi até o túmulo de seu pai e disse:
pensando muito naquela pergunta que o senhor me disse.
“Se eu tivesse o poder em minhas mãos, eu construiria pontes. Porque com pontes, eu poderia conectar pessoas. Conectar pensamentos esquecidos, esperanças que estão por um fio. Ajudar pessoas a atravessar os abismos da incompreensão, da solidão e da ignorância. E, se possível, conectar pessoas que já se foram… para que pudéssemos, ao menos, dizer um último ‘oi’. Avós, pais, amigos… espero que essa seja a resposta certa. ”
Até mais, pai. Já, já a gente se encontra. Adeus.
Luiz Henrique Silva Nascimento.

