Não eram tempos nada fáceis aqueles vividos por Socorro, Nísia e Bráulio. A tia-avó estava para ser canonizada, de tanto que fazia milagre com a pouca comida que tinha. Raramente faltava para seus sobrinhos, e ela ainda ajudava quem batia à porta pedindo comida. Mas, para isso — para não faltar no prato de quem pedia e para seus sobrinhos não dormirem com fome —, ela teve que ir tirando cada vez mais do próprio prato, até ele ficar vazio.
Ela entrara num jejum forçado que transformou a antiga Socorro, que usava grandes vestidos, em uma mulher magra, fraca e sem forças. Até que chegou um momento em que não dava mais: ela já estava delirante de fome. Foi então que, numa madrugada, comeu tudo o que ainda restava na despensa e esqueceu-se da seca que só piorava lá fora. Massa de milho, farinha, farofa, amendoim torrado, goma de tapioca… tudo ela engoliu a seco.
Na manhã seguinte, Nísia e Bráulio a encontraram no terreiro de casa, ao lado de um grande tambor onde ela guardava a água da última chuva, que havia ocorrido dois meses antes. Ela havia bebido tudo depois de esvaziar a despensa. Quando acordou, quase ao meio-dia, estava farta de comida e água. Demorou a perceber a gravidade do que havia feito. Não sabia onde arranjar comida novamente, visto que o que tinham guardado fora uma doação de um velho que já tinha morrido há algumas semanas — doação que ela vinha fazendo durar.
Socorro saiu nas casas vizinhas pedindo ajuda, pedindo comida, mas seu desespero dobrou quando ficou sabendo que nenhum vizinho tinha sequer um feijão para comer. Todos estavam se organizando para ir a Fortaleza, onde haviam ouvido dizer que padre Cícero aguardava os necessitados com mantimentos e água. Decidida a não morrer de fome e salvar os sobrinhos, Socorro se juntou ao grupo e partiu em travessia com os vizinhos.
As pernas já estavam fracas; seus braços não balançavam ao andar, para economizar forças. Parecia um dois de paus caminhando. A primeira noite da travessia se aproximava. Depois de um dia escaldante de calor intenso, até mesmo o impiedoso frio da noite parecia acolhedor. Socorro tinha apenas dois cobertores, um grande e outro pequeno. Seguindo o exemplo dos outros, cobriu Nísia e Bráulio com o maior, aproximou-se deles e cobriu-se com a parte que sobrava, completando com o cobertor menor.
A caravana havia decidido dormir numa gruta que encontraram no caminho; caso chovesse, estariam minimamente protegidos. Mas, na verdade, tudo o que mais queriam era que uma chuva caísse sobre eles — embora soubessem que isso era impossível. Era delírio.
Na manhã seguinte, Socorro acordou com um alvoroço lá fora. Deixou as crianças dormindo e saiu para ver o que era. Deparou-se com a cena de um jovem vestindo roupa de cangaceiro, apontando uma arma para a cabeça de uma senhora que morava perto de Socorro. Ele parecia querer assaltá-los. Quando viu Socorro ali, o provável cangaceiro apontou a arma para ela e se aproximou, ameaçando apertar o gatilho. Mas, tão rápido quanto apareceu, surgiu um homem moreno, barbudo e alto, que derrubou o garoto e lhe deu uma coronhada no rosto, apagando aquela praga.
Depois de acalmados os ânimos, tudo foi explicado. Realmente era um bando de cangaceiros, mas restavam apenas quatro — todos os outros haviam morrido de fome pela seca. O restante procurava misericórdia diante do sofrimento. A senhorinha explicou para onde estavam indo e por quê. Perceberam que aquele homem, que parecia ser o chefe do bando, não lhes faria mal. Eles se ofereceram para ir também, dizendo que poderiam proteger todos.
— Claro que vocês podem ir. Todos nós somos filhos de Deus em busca do servo d’Ele, o padre Cícero. (correção de apóstrofo e estrutura)
Eles seguiram a caminhada rumo a Fortaleza. Quem guiava toda a comitiva era seu Belisário, que, no passado, fazia muitas viagens para a capital e conhecia o caminho de cor. Os cangaceiros liberaram seus cavalos para carregarem as crianças e os idosos, que se cansavam mais rápido, mas os bichos também já estavam cansados, magros e com sede. Morreram no segundo dia de caminhada.
Os dias se passaram, e, segundo seu Belisário, eles já estavam bem perto de Fortaleza e só precisariam de um pouco mais de esforço. Mas Socorro já estava no seu limite. Bráulio, o irmão mais velho, percebeu quando a tia foi falar em particular com dona Josefa e quando a mesma lhe entregou um rosário de madeira. Pouco depois, todos estavam preparados para retomar a travessia para a capital.
Mas, quando voltaram a andar, Bráulio percebeu que sua tia não voltou com eles. Pelo contrário: estava ajoelhada na areia quente, segurando o rosário. Bráulio tentou ir até ela, mas dona Josefa o impediu e disse que a tia queria ficar sozinha.
Quando chegaram a Fortaleza, Bráulio esperava encontrar uma cidade colorida, com muito verde. Mas suas expectativas foram quebradas quando viram uma praça cheia de pessoas. Havia mulheres distribuindo sopa para os flagelados, outras distribuindo água e algumas doando leite para as crianças. Nesse momento, os cangaceiros seguiram o próprio caminho.
Mas Bráulio só tentava encontrar sua tia no meio de tanta gente. Quando menos esperava, dona Josefa o puxou pela mão e o levou ao meio de uma multidão que, assim como ela, era formada por velhas mulheres segurando garotos e garotas pelo pulso. Josefa abriu caminho à força, reclamando com quem atrapalhava, e levou Bráulio para o centro da muvuca. Chegou ali em meio a xingamentos.
Havia um senhorzinho sentado num banquinho, com os cabelos brancos bem penteados para o lado. Segurava uma bengala preta e estava vestido com uma batina preta longa — o que fez Bráulio estranhar o velho.
Só quando as coisas acalmaram foi que Bráulio percebeu que Nísia também havia sido trazida para ali. Para surpresa dele, dona Josefa caiu de joelhos, chorando aos pés daquele senhor, e o chamava repetidamente de “Padre Cícero!” Entre soluços incontroláveis de lamentação, ela dizia algo inaudível para o homem, que agora Bráulio entendia quem era.
Ele ajudou Josefa a se levantar, deu-lhe um abraço e, quando sua face chegou perto do ouvido dela, disse algo que a confortou. Depois, o padre aproximou-se de Nísia e Bráulio, pôs a mão sobre a cabeça dos dois e orou algo em voz baixa e rápida.
— Agora, é esta senhora que vai cuidar de vocês… — Bráulio tentou interromper o padre, pois não entendia o que ele estava dizendo, mas ele continuou: — Até vocês se reencontrarem com a tia de vocês.
Ele deu alguns tapinhas no ombro de Bráulio e sorriu. Josefa seguiu com as crianças para perto das mulheres que distribuíam sopa. Bráulio perguntou o que padre Cícero quis dizer com aquilo. E, num tom enigmático e melancólico, Josefa respondeu:
— Ela fez uma longa viagem… depois vocês vão entender que não dava mais, e que foi bem melhor para ela. Mas a tia de vocês não os deixou desamparados. Eu vou cuidar de vocês.
Apesar do tom maternal de Josefa, Bráulio só queria sua tia de volta.
Leonardo Silva Nascimento
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