Sob o Sol de 1914

O ar em torno da pequena vila cearense era seco e quente, e a terra rachada já não conhecia o frescor da chuva havia meses. Cícero era só mais um garoto do sertão, nascido e criado em meio à poeira e à esperança. Morava com os pais e seus cinco irmãos em uma casa simples, cedida pelo dono da fazenda onde trabalhavam.

Mas a qualquer momento, eles poderiam perder o pouco que tinham. O fazendeiro, aflito com a seca que dizimava o gado, avisara que, se a chuva não viesse, não teria como manter a fazenda — nem os empregados. E o inevitável aconteceu: o gado morreu, a terra virou pedra, e Cícero e sua família foram expulsos.

Naquele dia, o mundo do rapaz desabou. Aos dezesseis anos, ele já entendia que a fome e a seca não esperavam piedade. Sem rumo, reuniram as poucas coisas que lhes restavam — um colchão gasto, um pote de barro e a fé que ainda resistia — e partiram a pé, sob o sol impiedoso do sertão.

Depois de dias de caminhada, chegaram a Juazeiro do Norte, onde a multidão de retirantes buscava o mesmo milagre: água e compaixão. Mas não havia onde ficar, e um dos irmãos de Cícero estava à beira da morte, consumido pela desnutrição. Desesperado, o pai, José, perguntou a um homem da cidade quem poderia ajudá-los. A resposta veio com um nome que já corria de boca em boca: — Procurem Padre Cícero. Ele ajuda os pobres.

E assim fizeram.

Quando José encontrou o Padre Cícero Romão Batista, ajoelhou-se diante dele e implorou por ajuda: — Padre, salve meu menino… ele está morrendo de fome.

O padre os acolheu. Mandou o menino para a enfermaria e deu à família um abrigo e comida. Porém, na manhã seguinte, a notícia chegou fria como o orvalho ausente: o irmão de Cícero havia falecido.

A mãe, Maria, enlouquecida pela dor e pela seca, agarrou-se à fé, tornando-se uma devota fervorosa de Padre Cícero. Quando Romão chamou o povo para lutar na “Guerra Santa”, contra os que queriam calar sua pregação, Maria foi uma das primeiras a atendê-lo. Cícero, movido pela coragem da mãe e pela admiração pelo “Padim”, também se juntou à luta.

Mas a fome não perdoava nem os fiéis. O corpo de Cícero já não respondia. Magro, febril, os olhos fundos como poços secos, foi levado ao hospital, onde travou sua última batalha — não contra soldados, mas contra a seca que devastava o Cariri em 1914.

Cícero faleceu em 15 de março de 1914, vítima da fome e da sede, como milhares de outros sertanejos. A terra que o viu nascer continuou seca, mas seu nome ficou gravado na memória da dor nordestina, como o símbolo de uma infância perdida sob o sol cruel da seca.

 

Geísa Silva Mascarenhas

 

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