Em 1914, em uma pequena cidade do interior de Pernambuco, morava um garoto chamado José. Ele vivia com os pais e os avós em uma casa simples e pequena, feita de taipa. A vida de José era humilde, mas cercada de amor, carinho e esperança. Ele gostava de jogar bola, ir à escola e brincar com seus amigos Pedro e Joaquim.
Para José, todos os dias pareciam iguais: ele acordava cedo, escovava os dentes, tomava o café da manhã e corria para a escola. Quando dava dez para as onze, voltava para casa, almoçava e ia para a rua brincar. Essa rotina se repetiu durante anos — até o fatídico ano de 1914.
Naquele ano, José completava dez anos, mas a alegria da infância começou a se misturar com a preocupação dos adultos. A seca chegou com força, e as chuvas, que costumavam renovar a vida do sertão, não caíram. O pai de José, agricultor, passava os dias angustiado, e a mãe, que sempre mantinha o sorriso no rosto, agora chorava escondida na cozinha. Até os avós, antes tão animados, ficaram em silêncio.
José não entendia o que estava acontecendo, mas sentia que algo grave se aproximava.
Em uma manhã de junho de 1914, ele acordou e viu várias sacolas e trouxas na sala. Correu para a cozinha e perguntou à mãe:
— Mamãe, o que está acontecendo?
— Filho, vamos embora. Seu pai e eu decidimos que é hora de partir — respondeu a mãe, com os olhos marejados.
— Mas por quê, mamãe? — Insistiu José. — As coisas estão estranhas ultimamente…
— A chuva não vem, meu filho. As plantações estão morrendo, o gado está caindo de sede, e a fome está se espalhando. Não temos mais o que comer nem o que plantar. Seu pai soube que, no Ceará, há um lugar onde estão acolhendo famílias como a nossa. Precisamos ir.
— E meus amigos? Eu não vou poder me despedir deles? — Perguntou José, com a voz trêmula.
— Infelizmente, não, meu filho. Seu Antônio, da mercearia, vai nos levar com outras famílias. Vamos hoje mesmo. É a única chance de sobreviver — disse a mãe, tentando disfarçar o medo.
Naquela tarde, às duas horas, José e sua família deixaram tudo para trás: a casa de taipa, os amigos, as lembranças e até a esperança de que voltariam.
A viagem foi longa e sofrida. O chão rachado queimava os pés, e o sol parecia nunca se pôr. José via crianças chorando de fome, velhos desmaiando no caminho e animais mortos à beira da estrada. Mesmo sem entender por completo, ele sabia que o sertão estava doente de seca.
Depois de dias caminhando, chegaram ao Crato, no Ceará. Foram acolhidos por uma família generosa, que lhes deu abrigo por alguns dias. Lá, o pai de José ouviu falar de um homem bom, Padre Cícero Romão Batista, que estava ajudando os retirantes na cidade vizinha, Juazeiro do Norte.
— Lá, dizem que o padre dá comida e abrigo a quem precisa — contou o dono da casa. — Ele é um santo homem. No dia seguinte, a família seguiu viagem novamente.
Quando chegaram a Juazeiro do Norte, José viu uma multidão de pessoas magras e cansadas, mas também um homem de batina preta andando entre elas, distribuindo palavras de fé e consolo. Era Padre Cícero.
O padre os recebeu com bondade e disse: — Meus filhos, coragem. A seca castiga, mas Deus não abandona quem tem fé.
Ele conseguiu abrigo para a família de José em uma pousada simples e os incluiu entre os grupos que recebiam comida e água. Logo, o pai de José começou a trabalhar ajudando na construção de armazéns e galpões para guardar alimentos doados. A mãe passou a cozinhar e distribuir as refeições, enquanto os avós cuidavam das crianças menores.
José, mesmo sentindo falta da escola e das brincadeiras, começou a ajudar os outros retirantes: levava baldes d’água, entregava pratos de comida e contava histórias para as crianças tristes. No início, reclamava em silêncio, mas logo percebeu que seu trabalho também era uma forma de esperança.
Os meses passaram. A seca ainda castigava, mas o povo resistia com fé e união. Padre Cícero nunca deixava de ajudar — acordava antes de todos, caminhava pelas ruas e animava os que pensavam em desistir. José aprendeu com ele que a força do sertão está na solidariedade.
Em 1916, as primeiras gotas de chuva finalmente caíram. O cheiro da terra molhada invadiu Juazeiro, e todos choraram de emoção. Algumas famílias decidiram voltar para suas terras, mas outras, como a de José, escolheram ficar.
O pai conseguiu um emprego fixo, José voltou à escola e, pouco a pouco, a vida encontrou um novo rumo. Às vezes, ele ainda pensava em sua antiga casa em Pernambuco, mas agora entendia que o sertão não é só seca e sofrimento — é também resistência, fé e recomeço.
José nunca esqueceu as palavras de Padre Cícero, que um dia lhe disse: — “Meu filho, a seca passa, mas o amor do povo permanece. ”
E assim, José cresceu, construiu sua vida em Juazeiro e sempre agradecia por ter encontrado, no meio da seca, um novo lar e um novo coração sertanejo.
Luiz Henrique Silva Nascimento