O sol daquele ano parecia ter esquecido de descansar. Desde cedo, ardia sobre o sertão como um castigo antigo, rachando a terra, esfarelando o chão e silenciando até o canto dos pássaros. No Cariri, a seca de 1914 chegava como um visitante cruel, e ninguém sabia quando iria acabar.
Marcos, um menino de onze anos, caminhava descalço pela estrada empoeirada que cortava o pequeno sítio onde vivia. Ele carregava um balde vazio e tinha esperança de encontrar algum resto de água no antigo açude da comunidade. Quando chegou, viu apenas o chão seco, como se a terra tivesse aberto feridas profundas. Não havia nenhuma gota. Sentindo a garganta seca como o próprio sertão, Marcos voltou para casa.
Ao chegar, viu sua mãe olhando para um ponto fixo, com o olhar apagado. O pai tentava salvar o pouco da plantação, mas as folhas secas pelo sol já eram um sinal do fracasso. Os animais morriam um por um.
As famílias vizinhas deixavam suas casas, levando suas malas nas costas. Muitos seguiam para Fortaleza, onde acreditavam que talvez houvesse água, comida e algum trabalho para uma vida melhor.
Certo dia, o pai de Marcos reuniu a família. Triste, ele desabafou, dizendo que, se eles ficassem, a seca levaria tudo e que era hora de partir .
Ele olhou para o sítio onde viveu toda a infância e acreditava que passaria a vida ali. Tudo parecia pedir que eles não fossem embora. Mas a fome falava mais alto.
No caminho da viagem, encontraram outras famílias, com o olhar cansado e os passos arrastados. Era como se Marcos estivesse olhando para a própria família num espelho. De tempos em tempos, as filas de distribuição de ajuda eram enormes, mas a entrega era lenta.
A miséria se espalhava como um vento forte, levando embora a força de muita gente. Aquilo tudo ficou gravado na memória de Marcos como um corte profundo.
Quando finalmente chegaram a Fortaleza, a cidade parecia outro mundo, com as ruas cheias, os prédios altos, o movimento constante. Mas, para os retirantes, não havia descanso.
Apesar da dureza, Marcos aprendeu a usar suas forças.
Anos depois, quando já era adulto, ainda lembrava daquele caos. A seca de 1914 não tinha sido apenas um desastre natural. Tinha deixado marcas na terra, nas casas e, principalmente, nas pessoas — marcas que se tornaram parte da memória viva do Cariri.
Jefferson Moreira da Silva