O segredo do sótão

Camila sempre foi uma garota curiosa. Para ela, nunca foi difícil se desafiar a descobrir coisas novas. A jovem morava com seu pai, Roberto, e com a madrasta, Helena. Desde pequena, não tinha muito contato com a mãe biológica — hoje em dia, nem se lembra do nome dela.

Em sua casa, havia um sótão ao qual o pai sempre proibia a entrada. Mesmo assim, nunca lhe faltou vontade de explorar aquele lugar e descobrir o motivo de tanta proibição.

Um dia, os dois adultos saíram para trabalhar, deixando Camila sozinha em casa. Aproveitando a oportunidade, subiu apressada as escadas, dando de cara com o tão sonhado lugar. Para sua sorte, o sótão estava destrancado.

Ao entrar, percebeu que era um espaço desconfortável: velho, escuro e coberto de poeira, repleto de caixas empilhadas por todos os lados.

Camila quase se sentiu desanimada, mas, mesmo assim, continuou vasculhando as caixas, procurando algo que despertasse seu interesse — e encontrou.

Dentro de uma delas, havia uma fotografia antiga. Nela, uma moça muito bonita: jovem, de cabelos castanhos e cacheados na altura dos ombros, olhos verdes brilhantes e sardas espalhadas pelo rosto, parecidas com estrelas que salpicam o céu.

Camila ficou imóvel. Talvez fosse sua mãe, embora mal se lembrasse dela. A semelhança era impressionante, quase impossível de ignorar. Ainda assim, algo a confundia: se a mulher da foto parecia tão jovem, como poderia ser sua mãe, que havia partido há tantos anos?

Então, uma hipótese atravessou seus pensamentos — Helena, sua madrasta, era quase idêntica à mulher da foto. Talvez esse fosse o motivo de seu pai ter se casado com ela tão pouco tempo após a mãe ter desaparecido.

Camila engoliu em seco. Talvez o
pai escondesse o sótão não por medo do
pó ou da bagunça, mas por medo
das perguntas.
Mesmo assim, decidiu guardar o segredo. Já
desconfiava de algo há algum tempo, e agora parecia ter encontrado uma
peça importante daquele enigma familiar.
Seus pensamentos, porém, foram interrompidos de repente ao
ouvir a porta da frente sendo destrancada. O som ecoou pela casa como um
trovão.
Seu pai e Helena tinham voltado do trabalho.

— Há quanto tempo estou aqui? — sussurrou, assustada.

Camila desceu as escadas rapidamente, rezando para que o pai não percebesse onde ela estivera.

— O que você estava fazendo lá em cima, filha? — perguntou Roberto,
desconfiado.
— Eu estava no meu quarto, pai. Fazendo
uns trabalhos da escola… acabei agora. — respondeu, tentando parecer
natural.

Felizmente, o pai acreditou naquela desculpa esfarrapada. Camila subiu novamente as escadas, dessa vez indo de verdade para o quarto.

Mas não conseguia tirar a imagem da mulher da cabeça. Sentia que aquele olhar verde continuava a segui-la, mesmo fora do sótão.

Para espairecer, decidiu sair um pouco. Calçou os chinelos e foi até a praça próxima de sua casa. Sentou-se em um banco e ficou ali, pensativa.

Enquanto observava o movimento da rua, algo chamou sua atenção: uma mulher passava apressada do outro lado da calçada — idêntica à da fotografia.

O coração de Camila disparou.
Por um instante, quis correr atrás dela, mas hesitou.
— Deve ser coisa da minha cabeça…
— murmurou, tentando se convencer.
Mas, no fundo, sabia que aquele olhar verde e aquelas sardas
não poderiam ser coincidência.
Talvez o segredo do sótão não estivesse
trancado nas caixas, e sim vivo,
caminhando por aí, à espera de ser descoberto.

Maria Luyza Silveira Silva

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *