Acordou às 2h53 da madrugada. Aquele hábito de despertar sempre no mesmo horário já havia se tornado rotina. Seguindo o costume que ele próprio estabelecera, pegou o telefone da mesinha de cabeceira e desativou o modo off-line do aparelho, usado para economizar bateria durante o sono. Conferiu a barra de notificações e leu: “Meu amor enviou novas mensagens”.
Era estranho. Dias atrás, aquela simples notificação teria provocado uma euforia quase infantil. Agora, porém, o efeito era nulo. O calor que antes lhe subia ao peito era menor que o frio imaginado no coração da Antártida. Antes, sorria e abria o chat imediatamente; se recebia duas mensagens, respondia com dez. Agora, permaneceu imóvel, encarando a parede à sua frente, como se ela pudesse lhe oferecer alguma resposta. Atirou o telefone sobre a mesinha de cabeceira e voltou a dormir.
Sentia-se confuso. Em alguns momentos, tinha a convicção de que sempre fora fiel, amigo, sincero e carinhoso em excesso; em outros, mais longos e mais cruéis, acreditava que a culpa era sua — que fora ele quem diminuíra o contato, as mensagens, o interesse. Mesmo sabendo, no fundo, que a primeira versão era a verdadeira.
Estava havia dias sem vê-la e dizia a si mesmo que isso era o melhor. Bastava um único olhar daquela íris castanha e feiticeira, o mínimo vestígio daquele sorriso donairoso, e pronto. Só isso era suficiente para que ele voltasse a ser o mesmo bobo que, um dia, assumira ser.
O verbo “lembrar” insistia em ocupar sua mente. Lembrava-se do tempo em que o contato parecia mais intenso, quando se permitia conversas de todo tipo, a qualquer hora. Recordava-se do dia em que ela lhe perguntou, com a voz baixa: — O que houve? Você está bravo? Está com raiva de mim?
Naquele instante, apenas uma frase ecoou dentro dele: “Todos percebem quando alguém muda e se afasta, mas quase nunca admitem que foram suas próprias atitudes que causaram isso. ” Ele quis ser rude. Quis dizer tudo. Mas não se sentia no direito. Apesar de tudo, ainda tremia diante daquele rosto angelical.
Sem saber o que responder, balbuciou palavras soltas, que pareciam cair pelo chão do transporte público. Ela o encarou por alguns segundos e perguntou, quase em súplica: — Você não me ama mais?
Ele respirou fundo antes de responder: — Não… eu ainda te amo. Eu não queria mais amar, mas amo. Amo intensamente. Só que… eu demorei. Demorei para aprender. Antes de amar alguém, eu preciso me amar primeiro. Amar mais. Muito mais.
Hesitou, mas continuou: — Aprendi também a desconfiar das palavras. Elas já tiveram muito valor para mim. Hoje entendo que não valem mais do que as atitudes de quem as diz. Palavras perdem o sentido quando as ações caminham na direção oposta.
Leonardo Silva Nascimento
