Entre o Real e o Encantado

Aurora Ricci
pertencia a uma das famílias mais ricas da Itália e fazia parte da realeza do século XIX.
Porém, nunca teve o que uma criança realmente precisava para ser feliz: amor, carinho e pais presentes.
Diferente de sua mãe, a rainha Anna Ricci, Aurora não possuía a mesma beleza nem o carisma
que encantavam o povo. Ao contrário da rainha, a princesa era amargurada e
irritava todos ao seu redor — até mesmo os próprios pais.

Sua beleza não era admirável: era baixa para a idade, muito magra, pálida, e possuía um dos piores defeitos para alguém da corte — a arrogância. O que a diferenciava das outras crianças era o fato de não gostar de crianças. A única coisa que realmente amava era o jardim do palácio.

Em apenas um mês, a princesa fez com que cinco aias se demitissem, pois não suportavam seu comportamento. Isso deixaria os pais desesperados, pois não podiam ter uma filha malcriada — essa não era a imagem que a realeza queria transmitir aos súditos.
Decidiram, então, criar um plano: convidar uma criança da nobreza para fazer companhia à garota. Acreditavam que o mau comportamento da filha se devia à falta de contato com outras crianças havia anos.

Mas o plano fracassou. A menina convidada pediu para ir embora apenas um dia depois de chegar ao palácio. Aurora, mais uma vez, conseguiu afastar todos que se aproximavam dela.

Era só mais um dia comum na vida de Aurora. Como todas as manhãs, ela estava no jardim, sob a sombra de uma árvore de ipê. Só que, naquele dia, algo iria mudar — para sempre.

Ela estava sentada, encostada na árvore, quando, de repente, uma porta se abriu no tronco, e ela caiu, logo em seguida a porta se fechou. Quando parou de escorregar, aterrissou sobre algumas plantas. Sem entender nada, ficou imóvel por um tempo, até ouvir passos se aproximando.

Olá, o que está fazendo aí deitada? — Perguntou um garoto de altura média, bem-vestido, de pele clara e que aparentava ser da realeza.

Quem é você? Onde estou? Eu morri? — Perguntou a menina, assustada e confusa.

Não, você não morreu. Me chamo Francesco Rossi, sou do palácio Rossi. Você já ouviu falar na história do Jardim Encantado? É aqui onde você está. Como se chama? — Respondeu Francesco.

Já ouvi falar, mas… isso não é possível! — Disse Aurora, incrédula. — Venha, eu vou te mostrar.

Francesco estendeu a mão para a princesa e a ajudou a se levantar. Em seguida, começou a guiá-la pelo Jardim Encantado. Quanto mais caminhavam, mais Aurora se encantava — o que era uma novidade, pois ela nunca se encantava com nada nem com ninguém.

Pararam em frente a uma cachoeira, e Aurora ficou maravilhada. Em anos, ela finalmente sorriu.

O que achou? E você ainda não me disse seu nome, — disse o príncipe Rossi, observando-a.— Desculpe, me chamo Aurora Ricci, sou do palácio de Yorkshire. Como você descobriu esse lugar?

Igual a você: estava sentado e caí aqui. Agora é onde passo meus dias. Aqui posso fugir do palácio e da pressão de ser o futuro rei, e simplesmente posso ser uma criança comum.

Eu também posso vir aqui? Prometo não contar a ninguém, — perguntou Aurora, esperançosa.

Claro! Só não conte a ninguém. Agora quero te mostrar uma coisa.

A partir daquele dia, Aurora se transformou completamente. Tornou-se gentil, carismática e bondosa; sua beleza floresceu, e seus pais voltaram a sentir orgulho da filha. Todos os dias, ela desaparecia por horas para brincar no jardim secreto com Francesco — mas ninguém percebia sua ausência, pois era comum ela se isolar desde pequena.

Dois anos depois de descobrir o jardim, seu pai mandou derrubar a árvore para construir um salão. Quando Aurora acordou, a árvore já não existiajunto com o Jardim Encantado e com Francesco.

Era para ser apenas mais um dia comum na rotina de Aurora. Porém, assim que acordou, sua aia a chamou ao escritório do rei, onde seus pais a aguardavam. Na mesma hora, ela ficou assustada, pois ouviu passos apressados e móveis sendo arrastados. Mesmo assim, foi até o local solicitado.

Ao chegar, os pais a esperavam com olhares sérios. Então, ouviu algo que mudaria seu destino: teria que se mudar de palácio, pois seus pais haviam decidido seu casamento. Quando completasse dezesseis anos, casaria com um futuro rei. Isso seria em três anos, mas ela teria que se mudar imediatamente. Tentou contestar, mas era inútil.

Ao meio-dia, a carruagem partiu em direção à nova casa — um lugar completamente desconhecido. O tempo parecia se arrastar; um minuto era como uma hora. A viagem durou até a noite. Aurora não reconhecia o local, mas foi obrigada a entrar no palácio. Foi conduzida até seu quarto e informada de que, na manhã seguinte, conheceria seu futuro marido.

Totalmente confusa e amedrontada, chorou a noite toda, imaginando se aquilo era uma punição. Perguntava-se se o marido seria cruel, arrogante, ou se a faria sofrer… assim passou sua primeira noite no novo lar.

Pela manhã, uma empregada a ajudou a se arrumar e a levou até a sala real, onde conheceria o futuro rei da Itália. Enquanto caminhava pelos longos corredores, o coração batia acelerado. Quando pararam diante da porta e ela viu quem estava lá dentro, ficou em choque.

Você? — Foi a única palavra que conseguiu dizer. Ela não podia acreditar em quem via diante de si depois de tantos anos.

Aurora? — Respondeu ele, surpreso. — Retirem-se da sala e deixem-nos a sós.

Os criados saíram, deixando os dois frente a frente.

Você não mudou nada, — comentou Aurora, emocionada. — E você continua deslumbrante. Por que não voltou mais para o jardim? — Perguntou Francesco, agora o futuro rei da Itália. — Meu pai mandou derrubar a árvore. Espera… você é o meu futuro marido? O rei da Itália?Sim, mas se você… — Francesco foi interrompido por Aurora:

Eu estava preocupada com quem seria meu marido, mas, quando te vi, me acalmei. Francesco, eu te amo desde o jardim. Você me fez descobrir a melhor versão de mim mesma. Mas, se não sente o mesmo, tudo bem.

É claro que sinto o mesmo! Eu te amo, Aurora, e prometo te amar e te proteger para sempre.

Realidade

Vovó, você pode terminar de contar amanhã? Eu estou com sono e quero dormir, — disse a neta de Aurora.

Claro, meu amor, — respondeu a avó, fechando o livro e levantando-se. Quando saiu do quarto, a neta completou:

Manda um beijo para o vovô Francesco e diz que amanhã eu vou brincar com ele no jardim!Tudo bem, meu amor.

Boa noite! — Respondeu Aurora, sorrindo com ternura, enquanto saía do quarto com o livro em mãosum livro que contava a história da própria vida.

 

Geísa Silva Mascarenhas

 

 

 

 

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