Era uma madrugada fria. O inverno havia começado. A chuva tamborilava em pingos grossos sobre o telhado, produzindo um som hipnótico, quase reconfortante.
Acordei num sobressalto, sentindo um arrepio percorrer todo o meu corpo. O relógio sobre a escrivaninha marcava exatamente duas horas da madrugada, o que era estranho, afinal eu costumava acordar às sete. Ou seria às seis?
Foi essa dúvida que mais me assustou.
Levantei-me da cama e caminhei até o espelho. Tudo em mim parecia estranho. Cada uma das minhas feições dava a impressão de pertencer a pessoas diferentes, e eu me sentia completamente deslocado de mim mesmo.
Apenas vagas lembranças iam e vinham à minha mente, como fragmentos de um sonho ou um déjà-vu. Pensei que seria melhor voltar a dormir e esquecer aquilo. Talvez fosse apenas um pesadelo do qual eu ainda não havia despertado. Porém, mesmo deitado novamente, o sono não voltou.
Minha mente foi tomada por perguntas sem resposta.
Qual era o meu nome? Quantos anos eu tinha? Quem eu era?
Levantei-me outra vez e fui até a janela. De lá, vi pessoas desesperadas correndo pelas ruas, gritando e perguntando umas às outras seus próprios nomes. Algumas choravam. Outras apenas olhavam em volta, completamente perdidas. Por um breve instante, senti certo alívio.
Eu não era o único.
Depois de algum tempo, quando os primeiros feixes de luz do amanhecer romperam o horizonte, algo inesperado aconteceu. As pessoas simplesmente voltaram para suas casas. E, no mesmo instante, minhas memórias retornaram. Como se nunca tivessem desaparecido. Passei o restante do dia incapaz de esquecer aquela cena. O que havia provocado aquilo? Por que todos perderam as lembranças apenas durante a madrugada?
Na hora do almoço, perguntei à minha mãe se ela se lembrava de algum acontecimento estranho durante a noite. Ela apenas franziu a testa.
— Não aconteceu nada. Você está bem?
Na escola, perguntei aos meus colegas se alguém havia visto um clarão antes do nascer do sol. Eles trocaram olhares confusos e começaram a rir. Era como se apenas eu me lembrasse daquela madrugada.
Quando a tarde deu lugar à noite, nuvens escuras voltaram a cobrir o céu. A chuva começou a cair novamente. Eu e minha mãe estávamos sentados na sala quando senti exatamente a mesma sensação da noite anterior. Um frio percorreu minha espinha. No instante em que os primeiros pingos tocaram o telhado, minhas lembranças desapareceram outra vez.
De repente… Eu não sabia mais quem era. Uma mulher — que eu imaginava ser minha mãe — segurou meu rosto entre as mãos.
Ela estava desesperada.
— Qual é o seu nome?
Abri a boca para responder. Mas não consegui. Eu não lembrava. Olhei ao redor.
Os quadros pendurados na parede mostravam pessoas completamente desconhecidas. Aquela casa parecia familiar, mas, ao mesmo tempo, estranha. Era como visitar um lugar visto apenas em sonhos. O mais assustador era que as únicas lembranças que permaneciam intactas eram justamente as da madrugada anterior. Por quê? Por que essas memórias resistiam? O que havia de tão importante nelas?
Sem compreender o motivo, meu corpo começou a agir sozinho. Peguei meu casaco sobre uma poltrona e saí correndo. As ruas estavam tomadas pelo caos. Pessoas caminhavam sem rumo, chorando, gritando nomes que não reconheciam. Algumas imploravam perdão. Outras apenas observavam o vazio, completamente perdidas.
Mesmo sem saber para onde ir, alguma força invisível parecia conduzir meus passos. Resolvi segui-la. Depois de alguns minutos, parei diante de um beco estreito. As paredes estavam cobertas por grafites antigos e pequenos buracos provocados pelo tempo. O cheiro de asfalto molhado dominava o lugar. Havia algo errado ali.
Eu conseguia sentir uma presença. À minha esquerda, um homem estava ajoelhado, chorando compulsivamente. Ele repetia pedidos de desculpas enquanto arrancava os próprios cabelos. Aproximei-me lentamente. Quanto mais chegava perto… Mais percebia que aquilo não era um homem. Era um espectro. Uma alma.
No momento em que percebi sua verdadeira natureza, seu corpo começou a desaparecer lentamente, como fumaça sendo levada pelo vento. Foi então que compreendi algo perturbador. Aquele espírito só podia ser visto por quem também havia perdido as próprias lembranças. Olhei novamente ao redor. O beco parecia exatamente igual ao descrito em uma velha história que minha mãe costumava contar quando eu era criança. Uma história que eu sempre considerei apenas uma lenda.
Dizia-se que, muitos anos antes, numa noite exatamente como aquela, um homem voltava do trabalho. Estava cansado. Mas também profundamente feliz. Sua esposa havia dado à luz, havia apenas uma semana, a um menino de olhos azul-escuros, tão intensos quanto uma tempestade. Ao atravessar um beco, foi cercado por criminosos. Roubaram todo o dinheiro que ele havia recebido pelo trabalho. Depois o espancaram brutalmente.
Ele sobreviveu. Ou pelo menos foi isso que todos acreditaram. Porque, ao despertar, não lembrava mais de nada. Esqueceu o próprio nome. Esqueceu a esposa. Esqueceu o filho recém-nascido. Esqueceu até onde morava.
Passou dias vagando pela cidade como um estranho. Jamais conseguiu voltar para casa. Conta a lenda que, numa outra noite de chuva, as almas que habitavam aquele beco tiveram pena daquele homem. Conduziram-no suavemente para a morte, libertando-o do sofrimento. Seu corpo nunca foi encontrado. Mas sua alma permaneceu ali.
Durante o verão, quando quase não chovia, dizia-se que ela permanecia adormecida. Entretanto, no inverno… Quando as tempestades voltavam… O espírito caminhava pelas ruas implorando perdão à esposa.
E repetindo, sem descanso:
— Eu só queria ver meu filho outra vez…
Conta-se também que o mundo espiritual fez um juramento.
Enquanto aquela família não perdoasse os responsáveis por sua tragédia, todos os moradores da cidade carregariam, durante as noites chuvosas do inverno, o mesmo sofrimento daquele homem. Perderiam suas memórias. Sentiriam o mesmo desespero. E vagariam sem rumo. Talvez… aquele inverno fosse justamente o momento em que essa promessa finalmente estava sendo cumprida.
Segundo a lenda, existe apenas uma forma de romper a maldição. A esposa e o filho daquele homem precisam perdoar não apenas os criminosos, mas toda a descendência deles. Somente um perdão verdadeiro seria capaz de libertar aquela alma. Foi então que um pensamento atravessou minha mente.
Talvez fosse por isso que meus olhos fossem azul-escuros como uma tempestade. Talvez fosse por isso que minha mãe odiasse tanto a chuva. E talvez fosse por isso que ela nunca permitisse que alguém elogiasse meus olhos comparando-os ao céu antes de uma tempestade.
Olhei para as nuvens carregadas. Respirei fundo. Minha mãe talvez jamais conseguisse perdoar. Mas eu… talvez um dia fosse forte o bastante para fazê-lo. Porque, às vezes, o perdão não muda o passado. Mas pode libertar aquilo que ficou preso nele para sempre.
Maria Luyza Silveira Silva
