Ao Meu Amor, Por Amor

Desligou
a televisão da sala para escutar melhor o som da chuva que caía na calçada da
residência, algo que se tornara tão raro naquele inverno. Puxou a coberta sobre
o sofá, onde até então permanecera acomodado diante do aparelho, e seguiu até a
cozinha, onde recolheu sua caneca de estimação, ainda quente, com o leite
recém-fervido. À medida que atravessava os cômodos e corredores, apagava as
luzes, buscando um clima mais acolhedor, quase íntimo.

Passou
pelo banheiro antes do destino final, detestava ser interrompido pelas próprias
necessidades fisiológicas quando finalmente se entregava à noite.

Antes
de entrar no quarto, deteve-se diante da janela. Observou a rua sob a chuva: a
água descendo pela calçada, as folhas das árvores encharcadas, o brilho tímido
dos postes refletido no asfalto. Era o cenário perfeito para suas atividades
noturnas. Mas, de repente, um pensamento o atravessou: “E os animais de rua? E
as pessoas sem teto? ” Sentiu parte do entusiasmo escorrer junto com a água da
chuva. Fechou as cortinas e tentou se convencer de que não tinha culpa, de que
nada podia fazer além de se compadecer. “Posso sentir, mas não sou o salvador
da pátria”, murmurou para si mesmo.

Vestiu
um casaco que ganhara de uma amiga — que já não era mais amiga —, empunhou uma
pequena quantidade de folhas sulfite e empurrou a porta do quarto com o pé.
Trancou-a da mesma forma. A rotina se repetia noite após noite: o quarto
mergulhado na penumbra, como o restante da casa, tendo como única fonte de luz
uma vela sobre a escrivaninha. A caneca de leite foi colocada à sua esquerda.
Organizou as folhas sobre o móvel e separou apenas uma: a primeira a ser
preenchida naquela noite.

Pousou
a caneta sobre o papel e escreveu:

“Princesa,


quanto tempo desejo escrever-te esta carta. Morro de saudades de você. As
fotografias que me deixou já não são suficientes para suprir essa paixão que me
consome, lenta e incessantemente. Necessito dos teus abraços, do teu toque, dos
teus lábios, dos teus olhos pousados sobre os meus. Teu cabelo… ah, o teu
cabelo. Anseio tocá-lo novamente, sentir-lhe o aroma, reconhecê-lo pelo tato.
Quero, mais uma vez, tocar tua pele macia e ver, ao lado dos teus cabelos, o
reflexo da luz do sol. Preciso te rever. Necessito voltar para você.

Com
carinho. ”

Devolveu
a caneta ao porta-lápis, dobrou a carta com cuidado e acomodou-a em um envelope
já preparado. Selou-o com cera vermelha, como quem encerra um ritual. Em
seguida, guardou-o na gaveta, junto às outras — todas endereçadas a ela, todas
jamais enviadas.

Leonardo Silva Nascimento

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