A Palavra Final

Era uma vez um velho senhor em sua velha casa de barro, contando uma história para os seus filhos, que ouviam intrigados a narrativa de um homem que salvou o mundo de uma era de trevas e destruição. Em meio à história, os filhos perguntaram:

— Isak: Pai, você pode começar a história do início de novo? — Marcos: É, papai, conta desde o começo, por favor! — Jonas: Tudo bem, meus filhos, então a história começa mais ou menos assim.

Era uma vez, em um mundo vazio e pútrido, uma humilde família que vivia do campo e sobrevivia à base do trabalho manual. A família era composta por apenas um pai, uma mãe e uma inocente criança recém-nascida. Os pais eram felizes, pois, em meio ao caos e às injustiças do mundo em que viviam, eles tinham um ao outro. Eles sempre se divertiam com o campo e os animais da fazenda. Tudo era simples, mas necessário para a sobrevivência e felicidade deles.

Mas nem tudo o que é bom dura para sempre e, numa manhã ensolarada, em que o dia não dava sinal de nenhum mau presságio, surgiu, a caminho da casa, um batalhão de homens armados e raivosos, que bateu à porta de Pedro e Vitória.

— Soldado: Tem alguma criança aqui?!

Exclamou um dos homens do batalhão. Pedro, com medo de revelar que havia um filho recém-nascido em casa, respondeu, com a voz embargada:

— Pedro: Não, senhor. — Soldado: Precisamos revistar a casa. Com licença! — Pedro: Como assim? Mas por quê? — Soldado: Senhor, se não se retirar da minha frente, por ordens superiores, serei obrigado a lhe tirar à força.

Pedro, sabendo que sua mulher e seu filho estavam no quarto, tentou enfrentar o soldado e seu batalhão, mas não passou do primeiro golpe e caiu desmaiado no chão. Seu filho foi levado, sua esposa Vitória foi morta pelo batalhão, e apenas Pedro saiu vivo dali.

Lágrimas escorriam pelo seu rosto, que antes almejava felicidade e agora só conhecia mágoas e dor. Pedro perdeu seu gado, suas galinhas, suas plantações e sua casa. Algo dentro dele havia mudado: ele já não queria mais viver. A casa não tinha comida, não tinha plantações — não tinha mais nada.

Trinta anos se passaram, e Pedro agora vivia na praça da cidade, sentado entre as pessoas que passavam, mendigando ajuda. Com o tempo, tornara-se um mendigo não apenas de bens, mas também de espírito e sentimentos. Nada mais lhe importava; morrer de fome ou de sede já não fazia diferença. Ele apenas desejava reencontrar sua esposa, embora soubesse que isso era impossível.

Após três dias sem alimento ou água, Pedro agonizava, à espera da morte que o aguardava. Foi então que, em meio a tantas pessoas indiferentes, ele enxergou um homem que se aproximou, ajudou-o a se levantar e lhe ofereceu comida e água. Pedro achou estranho, pois naquele mundo ajudar o próximo não era algo comum; tudo parecia apodrecido e sem esperança.

Então o homem, percebendo a hesitação de Pedro, disse:

— Bom homem: Coma deste pão e beba desta água que lhe ofereço. — Pedro: Por que me oferece comida e água? — Bom homem: Essa é uma boa pergunta, mas não vem ao caso agora. Beba da água e venha comigo; você entenderá depois.

Pedro fez como o homem disse e o seguiu. Ele era quieto, mas transmitia sabedoria, e o levou até sua casa. Ao chegar, Pedro perguntou seu nome para agradecer pela nova chance de vida, mas o homem respondeu:

— Bom homem: Não precisa me agradecer. Agradeça ao Pai por essa nova oportunidade.

Pedro não compreendeu de imediato; suas crenças religiosas eram confusas e incompletas. Fora ensinado a cuidar apenas de si mesmo. Então o homem disse:

— Bom homem: Pois eu lhes digo: não odeiem seus inimigos e não amem apenas seus amigos. Amem seus inimigos, pois o poder do perdão pode abrir a porta estreita entre você e sua própria arrogância.

Pedro permaneceu em silêncio, refletindo profundamente. Naquela mesma noite, na casa onde estava hospedado, viu que o homem reuniu amigos em círculo para uma corrente de orações. Ao perceber Pedro, chamou-o para participar. Ali, Pedro aprendeu sobre o Criador, aquele que concede vida e consciência, e compreendeu por que aquele homem era tão bondoso. Naquela reunião, soube também seu nome — mas isso não é assunto para agora.

Pedro passou a seguir o homem, acompanhando-o em cultos, orações e boas companhias. Em meio a isso, percebeu que um dos amigos o observava de forma estranha, mas decidiu ignorar. Certo dia, esse homem não apareceu, nem pela manhã nem à tarde. Quando a noite chegou, ele retornou acompanhado por um batalhão — e não era um batalhão qualquer: usavam as mesmas fardas e tinham os mesmos rostos daqueles que haviam destruído a vida de Pedro anos antes.

Pedro estremeceu. Ao ver seus amigos sendo agredidos e o bom homem amarrado, prestes a ser levado, não se conteve. Pegou uma lâmina e avançou contra os soldados, ferindo dois deles sozinho. O ódio que carregava era avassalador. Estava prestes a continuar, quando o bom homem falou:

— Bom homem: Não faça isso. Eu estou aqui para cumprir meu dever. Por favor, vá para casa.

Pedro hesitou, mas, ao encontrar o olhar sereno do homem, obedeceu.

No dia seguinte, não se falava de outra coisa: cartazes espalhados pela cidade anunciavam que Jesus Cristo havia sido capturado. Dias depois, veio a notícia de sua condenação. Antes que pudesse descansar, pregos atravessaram suas mãos e seus pés. Ele foi obrigado a carregar a própria cruz e, por fim, foi erguido e morto.

Antes de partir, Cristo pronunciou sua palavra final:

— “Está consumado. ”

E então se foi.

Diante da morte de Jesus Cristo, o céu se fechou em uma tempestade densa; a chuva não trazia alívio, mas dor. Com o coração despedaçado, Pedro murmurou:

— Pedro: Verdadeiramente, este era o Filho de Deus…

— Jonas: E assim termina a história, meus filhos. Boa noite!

— Isak e Marcos: Mas, papai, foi uma chuva forte como essa que está lá fora?

— Jonas: Não, meu filho. Foi muito pior. Naquele dia, parecia que chovia sangue.

— Marcos: Mas por que Jesus disse “está consumado”? Eu não entendi.

— Jonas: Foi a forma que Ele encontrou para dizer que seu propósito havia sido cumprido.

— Isak: Mas pai

— Jonas: Sem mais perguntas. Está na hora de dormir.

— Marcos: Está bem… mas e o resto? — Jonas: O resto? Ah… o resto é história.

A graça do Senhor Jesus seja com todos. Amém. [Apocalipse 22:21]

Izael da Silva Santos

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