A JORNALISTA

Sem dúvida, ela era a maior jornalista daquela redação; os casos criminais caíam nas suas mãos como por encomenda. Enquanto os colegas de trabalho apenas conseguiam casos de roubo, sequestro (que haviam se tornado repetitivos) e golpes de estelionatários, ela conseguia, em primeira mão, os assassinatos, torturas, rituais satânicos e, principalmente, os seguidos homicídios da serial killer que estava em pauta, chamada “A Ferreira”, conhecida por esquartejar suas vítimas e ferrar cada parte em brasa com a sua inicial.

Para sua companheira de ofício, Clarita, Cora sempre parecia ter as matérias escritas, revisadas e prontas para publicação assim que a notícia de determinado assassinato chegava à redação. Clarita fazia esforço para comentar sobre isso com os demais, mas eles sempre argumentavam que Cora era apenas eficiente — e que Clarita estava morrendo de inveja da jornalista.

Mas, quando algo entrava na cabeça de Clarita, não havia quem pudesse tirá-lo de lá até que tudo fosse esclarecido. Tudo bem que o estopim para o final trágico — que em breve será contado — foi a pontada de inveja que ela sentiu pelo sucesso e prestígio constantemente atribuídos a Cora, mas nem sempre os meios justificam o fim.

O intervalo entre o anoitecer e o nascer do sol, na agenda de Clarita, era ocupado pelas constantes e repetitivas leituras das matérias escritas por Cora, cujas reportagens fizeram o número de assinantes do jornal crescer consideravelmente. Era como se ela escrevesse um livro de suspense. Era como se tudo que ela escrevia fosse fictício, e não casos reais, extremamente violentos e asquerosos — só não mais do que aqueles que aclamavam Cora. Os detalhes com que a jornalista descrevia os ataques brutais e o estado em que as vítimas eram encontradas eram surpreendentemente ricos até nas miudezas. Surpreendiam até os policiais que estavam no local dos crimes e não notaram tais especificações.

Dias depois, mesmo com certa relutância, a cisma com Cora ia saindo da mente de Clarita. Ela entrou na redação do jornal e, ao sentar-se em sua cadeira, encontrou um bilhete escrito num post-it na tela do computador. Ele dizia:

“Percebi que você anda muito interessada nas minhas reportagens. Eu também gosto das suas! Um bom vinho hoje à noite nos fará bem. Te aguardo na minha casa :)”

O bilhete era assinado por Cora e acompanhado do endereço.

Clarita amassou o papel e o jogou no chão. Olhou em volta e viu que a redação ainda estava vazia. Pegou o papel novamente e guardou no bolso — queria esfregá-lo na cara de Cora. Mas, quando seus colegas chegaram e Clarita perguntou por ela, disseram que Cora não viria porque estava doente, trabalharia de casa.

Clarita passou o dia alimentando pensamentos. Ao final dele, enfiou todo o seu material dentro da mochila e caminhou até o ponto de ônibus, mas refletiu e decidiu chamar um Uber. Assim chegaria mais rápido à casa de Cora — e sem ser vista. Pediu para descer uma rua antes.

Antes de bater a hora marcada, Clarita ficou sentada por minutos num banco da rua. Quando seu telefone tilintou com o alarme das 18h10, ela se levantou, colocou a mochila nas costas, respirou fundo, tomou coragem e caminhou até a casa de Cora. Tocou a campainha. A cada segundo de espera, sua tensão aumentava. Olhou para a rua: nenhum passante, todas as casas com as luzes apagadas, mesmo no início da noite.

A porta abriu. Lá estava Cora. Seus cabelos tinham a cor de mel queimado, e seu rosto, de traços finos e altivos, diminuía Clarita em comparação. Seu olhar tinha uma calma felina, desdém e curiosidade. Devorava a outra até que abriu um sorriso e disse:

— Pode entrar, boba. Vai ficar aí?

Clarita entrou, receosa. A casa da desgraçada era perfeita — dava de dez a zero no muquifo onde Clarita morava. Cora foi até a cozinha e, de lá, gritou para que ela se sentasse à mesa de jantar, que logo chegaria.

Pela primeira vez, Clarita admitiu para si mesma que sentia inveja de Cora. Até sala específica de jantar ela tinha.

Cora voltou da cozinha trazendo uma travessa de carne com batatas. Que inferno, pensou Clarita, até cozinhar bem ela sabe. Não é possível uma pessoa ter tantas qualidades e nenhum defeito.

— Come. Experimenta o meu tempero — disse Cora.

Clarita estranhou o tom de intimidade, mas fingiu naturalidade. Serviu-se. Observava a comida, desconfiada, pensando se não haveria ali algum entorpecente ou veneno…

— Eu ouvi falar que você gostou das minhas reportagens, da minha escrita e da minha percepção dos detalhes. Você é mais uma admiradora minha.

Clarita pensou em como ela era cínica. Sabia tudo que Clarita havia comentado na redação e agora dizia o oposto. Esperava uma resposta. Mas Clarita preferiu enfiar a comida na boca. Calar era mais seguro.

— Você é bem calada, né? Quando lhe convém — disse Cora, servindo o vinho. Na taça de Clarita, colocou uma quantidade bem maior.

Clarita aguardou Cora beber primeiro. Quando Cora fingiu beber, Clarita virou a própria taça inteira.

Continuou comendo enquanto a outra apenas observava. Cora não se serviu, não tocou no próprio prato. Silenciou.

Inebriada, calorenta, tonta e com dormência, Clarita afastou o prato. Era evidente que não estava bem. Virou-se para Cora — e se chocou.

Cora cuspia o vinho que fingira engolir. O líquido nunca havia chegado à sua garganta.

— Que merda é essa?!

Cora deu um soco no rosto de Clarita. Com a violência, a jornalista bateu a face na mesa e desabou inconsciente.

Quando voltou a si, Clarita estava amarrada a uma cadeira, com a boca amordaçada. O local era escuro, abafado, sufocante. A única luz vinha de uma fogueira, tornando o ambiente ainda mais desesperador. Com a visão turva, ela viu apenas uma silhueta manuseando uma vara com algo na ponta, aquecido no fogo.

A figura aproximou-se. Agora era claro: era um ferrete de marcar gado.

Cora.

— Olha, eu até poderia explicar tudo para você, como os vilões dos
filmes fazem. Mas estou sem paciência.
Preciso dormir cedo. Amanhã bem cedinho tenho que estar na redação perguntando
por você.
E acredito que — pelo menos pra mim — fica mais interessante que você morra com
a dúvida.

Cora ergueu o ferrete e cravou-o no rosto de Clarita.

Ela urrou. O som abafado, agonizante, fez Cora sorrir. Foi questão de milésimos: Clarita desmaiou no exato momento em que o metal em brasa tocou sua pele.

A Ferreira ataca novamente: jornalista é encontrada morta no quintal de casa

O corpo da jornalista Clarita Dassoin foi encontrado no início da manhã desta segunda-feira (22), totalmente esquartejado. Vizinhos e policiais que presenciaram a recolha dos restos afirmam que partes do corpo estavam ferradas, assim como as outras vítimas da serial killer que aterroriza São Paulo.

Assim como nos outros assassinatos, não se sabe o motivo que levou a jornalista a se tornar mais uma vítima da esquartejadora. […]

Leonardo Silva Nascimento

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