Na cidade de Governador Valadares, em Minas Gerais, mora Joyce, de 25 anos. Ela trabalha como jornalista no jornal local, o Minas Regional. Ela sonha em trabalhar em um jornal maior ou em mídias como TV e rádio, mas, por enquanto, gosta do que tem.
Carlos é o amigo mais próximo de Joyce e também seu vizinho. Ele é a pessoa por quem a jovem jornalista nutre uma paixão há anos, mas tenta esconder. Os dois trabalham juntos no Minas Regional, onde se conheceram. Carlos trabalha lá há mais tempo que ela e em uma área diferente.
Às vezes, no tédio e silêncio da noite, Joyce escreve cartas de amor para Carlos, mas nunca as envia por medo da resposta. A única pessoa, além dela, que sabe das cartas é Heleninha, sua melhor amiga, que sempre a incentiva a enviá-las. No entanto, Joyce ignora os conselhos da amiga a todo custo. Pensando na felicidade de Joyce, Heleninha decide enviar as cartas sem avisá-la, para o desespero — ou talvez a alegria — da jornalista.
— Como você pôde enviar as minhas cartas para o Carlos sem me avisar primeiro? — disse Joyce, indignada, enquanto Heleninha tentava se justificar. Mas nenhuma razão era suficiente para a jornalista, que, tomada pela vergonha, evitava até olhar para a amiga.
Joyce tinha apenas uma certeza: Carlos nunca mais iria querer olhar na cara dela. “Deve estar morrendo de rir ao ler aqueles versos de amor ridículos”, pensava. Sentia-se humilhada e, agora, só queria desaparecer. Nem se lembrava mais do trabalho no Minas no dia seguinte, pois sabia que, ao sair de casa, a primeira pessoa que veria seria seu vizinho.
Sem Heleninha para lhe dar conselhos, restava apenas uma pessoa a quem recorrer: sua avó, Adelaide, uma senhora de idade, mas tão lúcida quanto a neta.
— O que foi, minha filha? Por que está tão preocupada? — perguntou a idosa, acariciando os cabelos de Joyce.
— Ai, vó, eu nem sei explicar direito o que estou sentindo. É um misto de ansiedade, medo e vergonha.
Joyce então contou tudo para a avó, que a ouviu atentamente.
— Ô, meu docinho, se esse rapaz for tudo isso que você me diz, a resposta dele será positiva. Quantos homens não desejariam ter ao lado uma mulher como você? — afirmou Adelaide, com um sorriso terno. — E trate já de se redimir com a Heleninha! Se ela errou, foi querendo acertar.
A doçura nas palavras de Adelaide fez Joyce repensar seu nervosismo. “Tô nem aí. Ele quem vai perder”, pensou, tentando se convencer de que aquilo não era tão importante. Mas, para sua surpresa, ao voltar para casa, encontrou Carlos na porta, segurando um buquê de rosas vermelhas.
— Joyce, eu recebi as suas… cartas — disse ele, ainda surpreso com o conteúdo que havia lido.
— Você quer jantar comigo?
As palavras mal chegaram aos ouvidos de Joyce. Ela sentiu o coração acelerar, os joelhos fraquejarem, as mãos suarem frio. Mas conseguiu balbuciar um “sim”, e os dois foram ao melhor restaurante da cidade.
Durante o jantar, a tensão inicial deu lugar a risos e confissões.
— Parece coisa de filme… nem acredito que fui bobo o suficiente para esconder meus sentimentos — comentou Carlos.
Joyce sorriu, com o coração aquecido.
Seis semanas se passaram. O relacionamento evoluiu rapidamente, e agora os dois usavam alianças. Tudo ia de vento em popa, até que uma notícia inesperada abalou a felicidade do casal: Carlos recebeu uma proposta de trabalho em um grande jornal de São Paulo. O cargo de redator-chefe era um grande salto para sua carreira, mas exigiria uma mudança definitiva para a capital.
Joyce ficou feliz pela conquista dele, mas a dúvida logo a consumiu: o que seria deles? Manteriam o relacionamento à distância, apenas por mensagens, áudios e chamadas de vídeo? Não era isso que ela sonhava para os dois.
Carlos, tentando ser prático, lhe deu duas opções:
1. Joyce poderia continuar em Governador Valadares, seguindo sua própria carreira, mas teria que abrir mão do amor dos dois.
2. Poderia se mudar para São Paulo com ele, mas teria que deixar seu emprego para viver à sombra de sua ascensão profissional.
Nenhuma das alternativas a agradava. Ela não queria perder Carlos, mas também não abriria mão de sua carreira. Depois de muito pensar, Joyce decidiu que não cabia a ele dar todas as opções. Ela propôs sua própria alternativa:
— Você pode ir para São Paulo e me deixar para trás. Ou pode ir para São Paulo, mas continuarmos nos correspondendo por cartas — as mesmas cartas que nos uniram.
Carlos hesitou, mas aceitou.
Nos primeiros meses, as cartas eram intensas, repletas de amor e saudades. Mas, aos poucos, o entusiasmo começou a se esvair. As palavras já não tinham o mesmo brilho, e Carlos parecia escrever apenas por obrigação. Até que, em uma noite silenciosa, com uma xícara de café ao seu lado, Joyce escreveu sua última carta para Carlos. Não era uma despedida. Era um agradecimento.
Ela desejava a ele sorte, sucesso, felicidade… e, acima de tudo, amor — mesmo que não fosse ao lado dela. Antes de selar o envelope, observou as palavras no papel. Pela primeira vez, escreveu sem medo. E, ao fechar o envelope, sentiu-se leve. Finalmente, independente da resposta, estava em paz.
Leonardo Silva Nascimento.