UM HOMICÍDIO EM COPACABANA

PRIMEIRA PARTE

Os raios solares ainda nem haviam tocado a areia da praia de Copacabana, quando um ambulante já empurrava pelo calçadão da Avenida Atlântica seu carrinho de água de coco. Para ele, já não era incomum estar na rua às quatro da manhã, quando alguns ainda estão acordando ou tentando dormir. Afinal, quanto mais cedo começasse a vender, mais rápido poderia voltar para casa e seguir para o segundo emprego, meio período.

O ambulante seguiu adiante, até se aproximar do Monumento a Drummond. Reparou, então, em uma figura estranha recostada no “autor”. Achei que fosse apenas mais uma pessoa embriagada ou sem-teto que se deixava cair por onde passava. Mas, ao reparar melhor, percebeu que não podia ser nenhuma dessas opções: a figura estava bem-vestida, penteada, maquiada, calçada e… espera — não estava cheirando nada bem.

O ambulante acendeu a lanterna do celular, iluminou a figura dos pés à cabeça e, ao fitar o rosto pálido e imóvel, começou a falar:

— Senhora? Senhora? Acorda, mulher!

Ele remexeu aquela figura até perceber que ela já não tinha pulso, nem respiração — nem vida. O pescoço pendia para o lado, os braços caíam inertes em direção ao chão. Afastou-se do que agora sabia ser um cadáver. Olhou para os lados, nervoso. Os pensamentos que reverberavam eram: “E se alguém passar e achar que fui eu? E se quem a matou ainda estiver por aqui? E minhas digitais? Ficaram no corpo!

 

Não havia muito o que fazer, a não ser ligar para a polícia — e assim fez. Torcia para que os policiais chegassem logo e tomassem as devidas providências, pois não demoraria muito para alguém passar por ali, e a situação se tornaria bem desagradável.

Logo o local foi isolado. O delegado Ulisses chegou antes dos demais, chamou o IML para recolher o corpo e fazer o reconhecimento da vítima.

Lídia Maria das Graças, professora recém-aposentada do Colégio Santa Dulce dos Pobres, fora morta com um tiro na nuca, e o corpo fora abandonado junto ao Monumento a Drummond. Tudo indicava que ela não havia morrido ali, sendo apenas arrastada até a avenida.

Mais tarde, Rebecca das Graças, irmã da vítima, foi chamada à delegacia.

— Sua irmã foi encontrada sem vida por um ambulante. A perícia indica que ela morreu há algumas horas, vítima de um tiro na parte traseira da cabeça, provavelmente pega desprevenida — explicou o delegado Ulisses.

— Que horror! Mas quem diabos faria isso?

— Ainda não sabemos. Não há imagens do local.

— Como assim? O Monumento a Drummond tem câmeras justamente para evitar vandalismo!

— Ah, sim, claro… já vou entrar em contato com a central — disse o delegado, visivelmente perdido.

Rebecca percebeu que o delegado era completamente despreparado. Se ele não conseguiria resolver o caso, quem conseguiria?

Passou a tarde pesquisando na internet por profissionais especializados em casos criminais, mas nada parecia confiável. Até que, já de noite, recebeu uma mensagem de um amigo jornalista. Ele dizia conhecer uma mulher com grande capacidade de raciocínio e profunda admiração pela criminologia. Rebecca hesitou, mas, confiando no amigo, decidiu tentar.

Na manhã seguinte, enquanto tomava sua vitamina a contragosto, ouviu a campainha tocar — uma sequência quase melódica. Mancando, foi até a porta. Do outro lado, uma figura altiva se apresentou: uma mulher de cabelos negros lisos, cortados na altura da boca, vestido preto elegante, luvas longas de couro e olhar firme.

Iolanda Aranha. Prazer. Detetive particular.

Na cabeça de Rebecca, as perguntas pipocavam: “De que filme antigo você saiu? ” “Estamos em 2025! ” “Você veio de um universo paralelo? ” — Mas não disse nada.

Rebecca das Graças. Você foi indicada pelo meu amigo do jornal, certo?

— O da coluna policial? Escrita persuasiva e um ébrio nos fins de semana? Sim, ele mesmo.

— Não é que eu desconfie de você, mas preciso ter certeza. Estamos falando do assassinato da minha irmã. Quero saber se você realmente tem capacidade e licença para atuar nesse caso.

— Fico feliz em responder sim para as duas perguntas. Mas, para começar, preciso de duas coisas: que me diga tudo o que sabe sobre o crime e que me reconheça legalmente como co-investigadora. Afinal, não é só sair por aí coletando provas e entregar ao delegado.

— Pode ficar tranquila. Iniciarei meu relato.

Iolanda sentou-se, com certa dificuldade, num puff rosa escandaloso. Tentou manter a postura ereta, mas o móvel a engolia.

— Ainda era muito cedo quando recebi a ligação da delegacia. Disseram que haviam encontrado uma mulher morta na Avenida Atlântica. Quando cheguei, vi que era minha irmã. Ela estava encostada na estátua do Drummond. A autópsia indicou morte por tiro na nuca, após levar uma coronhada.

— Sabem se isso aconteceu ali perto? — Perguntou Iolanda.

— Ainda não.

— E as imagens das câmeras?

— Também não foram liberadas. O delegado nem sabia que existiam!

— Fique tranquila. Seu caso está em ótimas mãos — disse Iolanda, levantando-se. — Falarei com o delegado e trarei atualizações em breve.

SEGUNDA PARTE

Tirei os crocs dos pés e os joguei sabe-se lá para onde. Deitei-me no sofá. Iolanda entrou em casa e, antes que eu dissesse algo, ela já começou:

— Andrezza! Sai desse sofá agora! Cê chega do hospital, cheia de bactérias, e se joga no meu sofá?

— Nosso sofá!

— Nosso e das bactérias! Sai daí!

— Por quê? Não vai me dizer que conseguiu mesmo um trabalho como detetive?

— Estava duvidando de mim?

— Eu não! Só não sabia que alguém seria burro o bastante para te contratar. Você é uma jornalista desempregada tentando pagar as contas!

— Tive uma ajudinha do jornal. E o caso é sério. Não tenho tempo pra conversa.

O relógio marcava 23h46. Já estávamos analisando as imagens das câmeras do Monumento a Drummond. Iolanda acelerou o vídeo, até que, às 01h58, pausou.

— Veja. Aqui está o assassino.

Na tela, uma figura manca e encapuzada, inteiramente vestida de preto, arrastava algo. Quando chegou perto da estátua, deixou o corpo da vítima.

— Então ela não foi morta ali — concluí.

— Isso muda muita coisa? Ela ainda está morta!

— Talvez não mude tudo, mas prova que minha competência ultrapassa a do delegado — disse, sorrindo com arrogância. — Vou analisar mais a fundo. Pode descansar.

Sumiu pelo corredor.

Na manhã seguinte, acordei e Iolanda não estava em casa. O pior: não deixou café pronto. Coloquei o pijama na máquina de lavar — dava para sentir que ela desinfetara o sofá antes de sair.

Perto do almoço, ela chegou. Usava jaqueta de couro verde, calça justa e batom vermelho. Só se vestia assim quando planejava usar o charme como arma.

— Golpe da barriga? — Provoquei.

— Besteira. Fui à delegacia e depois à casa da Rebecca. Descobri muita coisa.

Ela posicionou duas cadeiras frente a frente e sentou-se.

— Pedi para ver o corpo e as roupas da vítima. E descobri que ela morreu na praia de Copacabana. As pontas da calça estavam molhadas e com cheiro de sal, além de conter areia. Acredito que, após levar a coronhada e o tiro, ela caiu de frente, perto do mar.

— Faz sentido.

— Descobri também que a Lídia tinha poucos amigos e dois inimigos: Ubaldo e Aloísio.

Contou que Ubaldo, ex-noivo desprezado, havia tido uma recaída alcoólica depois de ser humilhado por Lídia na escola onde ela lecionava. Já Aloísio, ex-marido violento, desaparecera após o divórcio — e Iolanda descobrira que ele agora vivia como mendigo.

— Então ele poderia ter feito isso?

— Sim. Um mendigo vagando pela madrugada não chamaria atenção. Mas há algo que não fecha. A Lídia tinha o hábito de ir à praia, na madrugada do próprio aniversário, para orar e agradecer. Isso significa que o assassino sabia desse costume íntimo.

— Então era alguém muito próximo — concluí.

— Exatamente. E é por isso que o caso está prestes a ser resolvido — disse, saindo apressada.

TERCEIRA PARTE

O fim de semana chegou e Iolanda não voltara desde então. Eu achava que ela tinha se metido em encrenca — ou pior, sido morta pelo mesmo assassino. Mas, quando a porta se abriu, quase deixei cair a faca que segurava.

— Voltei! — Anunciou.

— Onde você estava? Achei que tivesse virado mais uma vítima!

— Estava resolvendo o caso. E já descobri quem é o assassino. Ou melhor — a assassina.

— Mentira! Quem?

Rebecca das Graças. Foi presa hoje.

Fiquei em choque.

— A irmã da vítima?

— Exato. — Ela acendeu um cigarro e o encaixou numa piteira. — Passei a desconfiar dela quando mencionou a coronhada. A perícia ainda não tinha identificado o ferimento, então como ela saberia disso? Só poderia ter visto acontecer.

Além disso, apenas ela sabia do costume da irmã de ir à praia antes do amanhecer. Nas filmagens, o assassino manco também me fez lembrar da forma como Rebecca andava.

— Mas por quê?

— Motivo banal: dinheiro. Descobri que Lídia havia feito um seguro de vida generoso, tendo a irmã como única beneficiária. Ganância é uma arma tão perigosa quanto uma pistola.

— Mas como você conseguiu a confissão?

— Eu fui até ela com uma escuta escondida. Disse que já sabiam quem era o assassino. Bastou isso para que confessasse tudo.

— Nossa… e se não fosse ela?

— Então eu teria dado um tiro no escuro. Mas acertei.

Ela jogou o cigarro no chão e o esmagou com o salto.

— O primeiro caso de Iolanda Aranha, a detetive que solucionou um crime antes da própria polícia. — Sorriu. — Acho que encontrei minha verdadeira vocação.

— Só uma coisa: quem vai te pagar, se a contratante está presa?

— A delegacia vai me reembolsar. E amanhã, meu nome estará em todos os jornais.

Ela olhou pela janela, com o olhar satisfeito.

O nome Iolanda Aranha jamais será esquecido.

 

 

 

LEONARDO SILVA NASCIMENTO

 

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