O Relógio e a Terceira Morte

O ar na pequena vila de Neblina era sempre denso, carregado com a umidade fria que subia do pântano circundante. Naquele dia, a névoa não era apenas espessa — ela parecia ter vontade própria, envolvendo as casas de pedra como um sudário úmido.

Era o clima perfeito para o trabalho de Silas. Silas não era um homem velho, mas seus olhos carregavam a fadiga de séculos. Ele era o relojoeiro da vila, mas seu verdadeiro ofício, conhecido apenas por sussurros, era a manipulação do tempo — ou melhor, a negociação com o que vinha depois dele.

Ele havia enganado a Morte duas vezes, e, da primeira vez, o preço foi uma camada a menos de sua humanidade. Na primeira ocasião, ele trocou sua juventude por mais dez anos de vida, e o pacto selou sua pele com a textura de pergaminho antigo.

Na segunda, ofereceu a memória de seu primeiro amor para garantir que a doença que o consumia passasse para o corvo que vivia empoeirado em sua janela.

Agora, a Morte voltava — não com a foice, mas com um convite silencioso, manifestado pelo súbito e antinatural silêncio dos sinos da igreja.

Silas sabia que, dessa terceira vez, não haveria troca — apenas a cobrança final.

Ele estava em sua oficina, trabalhando febrilmente em seu último mecanismo: um relógio de bolso feito de prata lunar e engrenagens de obsidiana.

Seu plano era audacioso: construir um momento perfeito, um lapso temporal tão puro e denso que a própria Morte, ao tentar alcançá-lo, ficasse presa dentro dele.

A névoa lá fora parecia vibrar com a expectativa, aproximando-se, farejando a última batida de seu coração humano.

Maria Nayane Gomes dos Santos

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