Durante mais um daqueles tediosos domingos de verão, em que sua mãe o obrigava a acompanhá-la à missa, o padre anunciou que embarcações trazendo famílias belgas fugitivas da guerra estavam chegando aos Estados Unidos.
Thomas, que normalmente prestava pouca atenção às celebrações, ergueu a cabeça ao ouvir a notícia.
Seu pai já havia comentado sobre a guerra que devastava a Europa, sobre famílias inocentes que viviam em países vulneráveis e precisavam abandonar tudo para buscar segurança em terras desconhecidas.
Mas aquilo nunca realmente chamara a atenção de Thomas. Afinal, ele era americano, e a guerra acontecia do outro lado do oceano. Parecia algo distante demais, quase como uma história pertencente a outro mundo. Entretanto, perceber que aquelas pessoas realmente estavam chegando ao seu país mudou completamente sua forma de pensar.
E se fosse sua própria pátria em guerra? E se ele e seus pais fossem obrigados a abandonar a própria casa, deixando para trás tudo o que haviam construído para recomeçar a vida em um país completamente desconhecido?
Na semana seguinte, as famílias refugiadas já haviam chegado e passaram a morar em abrigos construídos pelos americanos em sinal de solidariedade.
Naquele mesmo dia, um novo aluno entrou em sua sala.
Era um rapaz magro — muito magro. Tinha a pele clara, cabelos extremamente escuros e olhos verdes que pareciam observar tudo ao redor com atenção constante, como se esperasse algum perigo surgir a qualquer instante.
Havia em sua postura um peso que fazia parecer mais velho do que realmente era. Seu nome era Henri.
Quando o professor explicou que ele fazia parte de uma família belga refugiada da guerra, a sala inteira permaneceu em silêncio por alguns instantes. Thomas sentiu uma forte pontada de compaixão. Queria ajudá-lo.
Não financeiramente — sua família também enfrentava dificuldades —, mas acreditava que uma amizade poderia tornar aquele recomeço um pouco menos doloroso.
Durante o intervalo, percebeu Henri sozinho perto do muro do pátio. Decidiu aproximar-se.
— Quer jogar futebol com a gente? — Perguntou, tentando ajudá-lo a se enturmar.
Henri lançou um olhar rápido para o campo improvisado.
— Não, obrigado.
Thomas pensou em voltar para os amigos. Mas desistiu. Sentou-se ao lado do belga, apoiando os braços sobre os joelhos. Henri pareceu surpreso, embora não dissesse nada. Um silêncio que Thomas julgou desconfortável instalou-se entre os dois. Eles observavam os outros alunos jogando futebol com uma bola de meia.
Henri mantinha os olhos fixos na partida, mas seu olhar parecia perdido em algum lugar muito distante. Tentando quebrar o silêncio, Thomas perguntou:
— Você joga?
Henri voltou-se para ele.
— O quê?
— Futebol.
— Ah… sim.
— Então por que não está lá?
Henri deu um leve sorriso sem graça.
— Ainda não conheço ninguém.
Thomas deu de ombros.
— E daí?
— Seria estranho…
Thomas sorriu.
— Essa desculpa não vai durar muito.
Henri arqueou uma sobrancelha.
— Por quê?
— Porque agora você já conhece alguém.
Pela primeira vez, Henri sorriu de verdade.
— Thomas, certo?
— Certo.
Henri estendeu a mão.
— Henri.
Thomas apertou sua mão.
Naquele instante, nasceu uma amizade que mudaria a vida dos dois. Depois daquele dia, Henri e Thomas passaram a se encontrar todas as tardes, logo após a escola. Sentavam-se sempre no mesmo banco da praça, protegido pela sombra de uma enorme árvore de copa exuberante. Ali conversavam durante horas.
Com o passar dos meses, Henri aprendeu inglês fluentemente e, pouco a pouco, começou a superar os traumas deixados pela guerra. Gostava de contar histórias sobre a Bélgica antes dos bombardeios, descrevendo ruas, festas, paisagens e lembranças que faziam seus olhos brilharem de saudade.
Quando chegou aos Estados Unidos, Henri tinha dezesseis anos. Thomas também. Os anos passaram depressa. Antes que percebessem, ambos haviam completado dezoito anos. No aniversário de Henri, sua mãe convidou a família de Thomas para um almoço. Foi um dia alegre. À tarde, como de costume, os dois caminharam até a praça.
Sentaram-se sob a velha árvore. Foi então que Henri respirou fundo.
— Preciso voltar para a Bélgica.
Thomas permaneceu em silêncio.
— A guerra ainda não acabou… e agora tenho idade para me alistar.
As palavras pesaram como chumbo.
Thomas já sabia que aquilo aconteceria, mas nunca estivera preparado para ouvi-las. Depois de alguns minutos em silêncio, falou:
— Eu não sei quanto tempo essa guerra vai durar…
Respirou fundo.
— Mas quero acreditar que um dia ela vai terminar. Então vamos fazer uma promessa. Daqui a dez anos, exatamente neste banco, nós nos encontraremos outra vez.
Henri permaneceu olhando para a árvore.
Parecia lutar contra as próprias emoções. Finalmente respondeu:
— Eu prometo.
Os dois apertaram as mãos. Talvez fosse apenas um adeus de alguns anos. Talvez fosse o último aperto de mãos de suas vidas. Nenhum dos dois poderia saber. Thomas jamais esqueceu aquela promessa. Contava os anos. Depois os meses. Depois os dias. Cada réveillon significava que o reencontro estava mais próximo.
Finalmente, dez anos se passaram. Na data combinada, Thomas voltou à praça. Tudo parecia igual. Exceto pela árvore. A antiga árvore frondosa agora estava completamente seca. Sem folhas. Sem flores. Sem vida. Thomas esperou o dia inteiro. Henri não apareceu. No sábado seguinte, voltou. Depois no outro. E no outro.
Durante todo aquele ano, repetiu o mesmo ritual. Sempre esperando. Cinco anos depois, Thomas começou a escrever cartas. Contava sobre sua vida. Seu trabalho. Sua família. Falava da promessa. Falava da árvore. Nenhuma carta recebeu resposta. Jamais soube se chegaram ao destino. Ou se Henri ainda estava vivo para lê-las.
Thomas conhecia seu melhor amigo. Sabia do amor que ele sentia pela Bélgica. Sabia que jamais abandonaria seu povo enquanto ainda pudesse ajudá-lo. Por isso, recusava-se a acreditar que Henri simplesmente tivesse escolhido esquecê-lo.
Vinte anos haviam se passado. A árvore permanecia seca. Thomas já tinha cabelos grisalhos. Mesmo assim, todos os anos voltava ao mesmo banco. Sempre na mesma data. Sempre no mesmo horário. Sentava-se em silêncio e olhava para o caminho por onde Henri costumava chegar. No fundo do coração, preferia acreditar que o amigo havia esquecido a promessa. Porque essa ideia doía muito menos do que imaginar que ele jamais tivera a chance de cumpri-la.
Na primavera daquele mesmo ano, um carteiro entregou-lhe uma carta envelhecida, escrita em francês e enviada décadas antes. Ela jamais chegara ao destino por causa dos inúmeros deslocamentos do pós-guerra.
Com as mãos trêmulas, Thomas abriu o envelope. Havia apenas uma folha. Nela, poucas linhas.
“Meu irmão de coração,
Se esta carta chegar até você, talvez eu já não esteja mais vivo.
Lutei pela nossa terra porque era o que precisava fazer.
Nunca me esqueci da promessa.
Se eu não puder voltar, quero que saiba que aqueles anos ao seu lado foram os mais felizes da minha vida.
Quando olhar para nossa árvore, lembre-se de mim sorrindo, não da guerra.
Seu amigo para sempre, Henri.”
Thomas terminou de ler sem conseguir conter as lágrimas. No fim daquela tarde, voltou à praça pela última vez. Sentou-se no velho banco. Apoiou delicadamente a carta sobre as raízes da árvore seca. Sorriu entre as lágrimas.
Na manhã seguinte, os moradores perceberam algo impossível. Entre os galhos secos havia surgido um único broto verde. Talvez algumas promessas nunca deixem de florescer.
Maria Luyza Silveira Silva
