Quando a Chuva Voltou

O sol estava de lascar no Cariri, em 1914. O chão todo rachado, os bichos caindo duro de sede, e o povo… vixe, o povo já estava sem nem saber o que era esperança. Diziam que aquela seca era uma das piores, que quase não caiu uma gota o ano inteiro.

Bento acordava cedo, olhava para o céu… não via nadinha. Nem uma nuvem perdida. Só aquele calor ruim que parecia queimar até o pensamento.

Na casinha de barro, Maria tentava fazer render o restinho do feijão. Mexia a panela devagar, e os meninos olhavam para ela com aquele olho de “mãe, tô com fome”.

— Bento, vamo embora daqui… — ela falava, toda cansada. — E nós vai pra onde, Maria? Onde a gente for o sol vai junto… — ele dizia, desanimado.

O povo comentava que muita gente tava indo pra Juazeiro pedir ajuda e a bênção do Padre Cícero. Diziam que ele tava acolhendo quem chegava lá e dando uma palavra de fé. Bento, mesmo sem falar muito, às vezes murmurava:

— Padim Ciço, dá uma luz pra gente…

O tempo foi passando devagar, feito cobra fria. O açude, que já tava pequeno, virou só um buraco de lama grossa. As noites vinham sem vento, as manhãs vinham sem sombra, e o povoado ia se entregando à tristeza, um fiapo por vez.

Mas foi numa tarde — uma tarde igual às outras, quente de amolecer os ossos — que a pequena Rosa, a filha mais nova de Bento e Maria, saiu correndo do terreiro, gritando com a voz fina:

— Mainha! Eu ouvi um barulho de água! Eu juro!

Maria franziu a testa, achando que era imaginação da menina. Mas Rosa puxou a mão da mãe com tanta força que ela foi. Bento, curioso, seguiu atrás.

Chegando perto da grota funda, eles ouviram: um barulhinho leve, suave, como se a terra tivesse suspirando.

E ali, no meio da areia quente, uma gota pingou. Depois outra. E outra.

— Meu Deus… é nascente voltando! — Disse Maria, com a voz embargada.

Bento ajoelhou, passou a mão na água que brotava, e o povo que viu de longe veio chegando, primeiro desconfiado, depois correndo, depois chorando.

— É milagre! — Gritava uns.— É Padim Ciço! — Dizia outros. — É Deus lembrando da gente! — Murmuravam muitos.

A água foi abrindo caminho, se espalhando pela grota, ganhando força, como se tivesse guardada desde o começo do mundo. O povo botou cuia, botou pote, botou garrancho de esperança. Parecia que o Cariri respirava de novo.

Foi assim que, quando o céu finalmente se fechou em nuvem pesada, o vento mudou de cheiro. E a chuva desceu — grossa, bonita, forte, molhando a terra, o povo e as dores todas.

Maria abraçou Bento. Bento abraçou as crianças. E Rosa abriu os braços para o mundo, deixando a água cair no rosto.

Porque naquela seca braba, naquele ano de provação, o milagre não foi só a água voltar.

Foi o povo aprender que, mesmo no chão mais duro, a esperança sempre cava um jeito de brotar.

E até hoje contam essa história pelos cantos do Cariri: que foi naquele janeiro de 1914 que a chuva voltou…e voltou levando junto a tristeza, como quem varre poeira antiga da alma.

Sabrina da Silva Oliveira

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