No ano de 1914, o céu do sertão se calou. Não trovejou, não chorou, não sussurrou sequer uma promessa de chuva. Os nordestinos esperavam o inverno como quem espera um parente querido, mas o tempo passava e o calor apertava o peito como ferro em brasa. A terra, antes teimosa e viva, abriu-se em feridas largas. As plantações nem chegaram a nascer — morreram antes mesmo de existir. O gado cambaleava em silêncio, bebendo a última gota dos açudes que se haviam transformado em lama. Cada dia era mais quente que o anterior, como se o sol tivesse decidido morar ali para sempre.
Dona Irene olhava o céu como quem espera alguém. Na verdade, ela esperava a chuva que nunca chegava. Ficava cada dia mais triste, pois os três bois que possuía estavam magríssimos, sem pasto para comer e sem água para beber. Com apenas a fé lhes sustentando a vida, resistiam como podiam. A senhora, de cinquenta e dois anos, também sofria: faltava-lhe água para beber e até para tomar um banho direito. Sem as chuvas, não havia plantações, e sem plantações não havia colheita — nem comida.
Ela morava numa casinha de taipa, sozinha, pois não tinha marido, muito menos filhos, e seus pais já não eram vivos. Certo dia, decidiu que migraria para o Rio Grande do Norte, na esperança de encontrar vida melhor. Onde vivia, o único destino possível parecia ser morrer de fome. Mas, para migrar, ela precisava de dinheiro. Determinada, saiu em busca de trabalho.
Encontrou então um senhor chamado seu Joaquim, um homem idoso, aposentado, que precisava de alguém para cozinhar para ele durante duas semanas e limpar a casa — já que, como ela, também vivia sem familiares. Dona Irene aceitou o serviço e, ao final, conseguiu juntar o dinheiro necessário para seguir viagem.
Mas, em vez de partir imediatamente — já que os transportes eram difíceis, escassos e caros —, decidiu primeiro comprar comida e permanecer mais um pouco em sua casinha de taipa. Foi então que ouviu rumores da guerra em Juazeiro, liderada pelo padre Cícero Romão Batista. O sertão estava em rebuliço: em fevereiro de 1914, grupos armados e tropas oficiais se enfrentaram pelas estradas do interior. A batalha foi feroz. As tropas do governo tinham armas modernas, mas faltava-lhes o que o povo dizia ser o maior poder de Juazeiro: fé. Os homens do padre Cícero, armados com punhais, facões, bacamartes (espingardas artesanais), montados em cavalos e jumentos, lutaram com coragem e devoção. Dona Irene, vendo a movimentação, decidiu permanecer e ajudar como podia — cozinhando, carregando água quando encontrava, cuidando dos feridos. Lutava não com armas, mas com presença.
Depois de horas intensas de combate, Juazeiro venceu. A poeira ainda nem havia baixado quando, cerca de duas horas após o fim da batalha, o impossível aconteceu: o céu finalmente se abriu.
Começou a chover. Primeiro, um pingo tímido. Depois outro. E então o céu desabou em água, como se tivesse guardado tudo para aquele instante. A cidade inteira foi à loucura. Gente chorou, sorriu, se abraçou. O cheiro de terra molhada parecia um milagre sendo respirado.
Dona Irene levantou o rosto para o céu e deixou que a chuva lavasse seu corpo e sua esperança. Juazeiro voltava a ter vida — e ela também.
Paulo Henrique Alves Pereira